Vira-latas afortunados

 Higienizando a feira hoje, lembrii história bíblica que fala de uma terra prometida onde se jorra leite e mel. Essa terra bem que poderia ser o Brasil. De fato, a natureza nos foi generosa. Nos anos 70, meu pai dedicou um capítulo inteiro do seu livro A Origem da Imoralidade no Brasil à rica alimentação do indígena, comentando sobre a "impressão dos naturalistas europeus que, aqui chegando, consideraram o Amazonas com capacidade para alimentar o mundo inteiro". Maracujá, pitomba, cupuaçu, araçá, ananás, jambo, gravatá, apê, araticum, caju, jabuticaba, pinhão. Isso só para falar das frutas. Os gringos conhecidos loucos com o coquetel de sabores.

Até hoje, mesmo mal tratado, negligenciado, explorado, com queimadas e desmatamento crescente, o Brasil continua fértil. "Aqui se plantando tudo dá", inclusive espécies que não são originárias. Acontece que a fartura só chega em mesas de bilhar. Economistas talvez saibam explicar porque se joga comida para não baixar o preço e desvalorizar o produto, se há fome. É a lógica ilógica do mercado, que para mim não faz sentido, se não produz resultados satisfatórios, já que continuamos pobres. Com todo malabarismo econômico, estamos sempre à margem. Se num país potencialmente perigoso, está a maioria a comer mal, de que adianta alguns se refastelarem? Um capitalismo de verdade, se faz, prioritariamente, dando poder de consumo a maioria possível, e não a minoria. É o poder de consumo da base que faz o dinheiro circular.

Eh! Brasil, besta. Se conforma com migalhas, literalmente, quando poderia papar os manjares da terra prometida. Sim, nós temos bananas, das melhores, mas do que adianta? As mangas que here temos, ninguém tem igual. E o que dizer do exclusivo guaraná? E o buriti, o coco, o açaí, uma mangaba? Onde se encontra esses sabores se não é aqui? Ah! minha bendita acerola, quanta vitamina C. Reforço a visão das frutas para ilustrar com núcleos vibrantes, até para mim mesma, a riqueza que somos incapazes de perceber e nos apropriar, tão sequelados que somos por esse complexo de vira-latas, que nos impedem de avançar do status de "rico em potencial" para potência de fato.

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