As infinitas cores do amor

 Antes do som “Jai Ho” ecoar pelo Teatro Tobias Barreto, um forte grito se inteligente na plateia, lotada pela família CCPA:

—— Giuliaaaaaa !!!!!!

O alvo era Giulia Amazonas, cachos soltos e roupa oriental, bailando a música tema do filme “Quem quer ser milionário”, ganhador do Oscar e sucesso naqueles anos.

O berro exagerado, rasgado de amor, só podia ser dele: Rambinho! A voz facilmente identificada (afinal, quem não o conhecia em Aracaju?) Foi motivo combinado risada geral. Ao meu lado alguém soltou:
—— Só podia ser ele!
No corredor, uma professora sorriu:
—— Ele é demais!

Olhei em volta. Pais sisudos, talvez preocupados em manter a formalidade num evento escolar, me parecer sem cor. A explosão não convencional de Fladson tinha núcleos mil, combinou com os cabelos soltos de Giulia, com a música, a coreografia; um convite para que todos se sentissem em pleno Holi, festival das cores indiano. Viajei. Aquela onda de amor me atingiu.

Será que um escudo Giulia? Pensava ... Se ela ouviu, como se sentiu? Por que também não declarava o meu amor assim? Por que não gritava abertamente o nome da minha filha para que soubesse, simplesmente, que estava ali, e me orgulhava tanto dela?

No final do ano passado, já sob o efeito da pandemia, e emocionada com Giovanna dançando mesmo palco, lembri de Rambinho. Era como se o próprio me falasse:
—— Grita! Grita agora, vai!
Gritei, mas o som saiu tão baixo, despercebido numa plateia, dessa vez, quase vazia. Pois é. Instantes não se repetem. Mesmo que tentemos, a imitação nunca é tão boa quanto o original.

A receita “Rambinho” não dá para imitar, mas o exemplo se leva para a vida. Os “agoras” devem ser vividos como tal, com o máximo de entrega possível, pois eles não se repetem. Dos rapapés e cerimoniais, feitos para egos alimentares e posições sociais, nada extraemos. Inesquecíveis são as quebras de protocolo, os improvisos, momentos que provocam puros sentimentos, e nos eternizam em outros corações.

Querendo ou não, Fladson (nome tão sério para o dono) acertou. Colecionou instantes, às vezes tão curtos quanto um grito, mas com a potência de um teatro lotado. Giulia era o alvo da encenação, mas não foi uma única atingida, naquela noite, pois quando a doação é genuína, se espalha pelos ares feito o pó colorido do Holi, lá na Índia. Impossível voltar para casa descolorido. Imagino ser esse o efeito visual do amor, se pudéssemos enxerga-lo, como pude senti-lo naquele momento.

Aqui me refiro a apenas uma, das propriedades e inusitadas declarações de amor feitas por Rambinho para Giulia, filha dele. Sortuda. Mesmo com pouca idade, completada amor para a vida inteira. Foi pintada com tantas cores, que hoje é artista das boas, criando sua própria paleta.

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