Só Deus
Domingo acordei com as galinhas e fui levar Luna para passear na pracinha. Podia sentir o coração da rua sob os meus pés. O único som real era o do chocalho do vendedor de picolé.
De repente, num silêncio que até o vento obedecia, um bolo subiu pelo estômago e parou na minha garganta. A sensação foi horrível, queria chorar, mas nem balbuciar isol.Hoje, em plena segunda-feira, dia de branco, permiti ao meu corpo chorar, chorar, chorar, desmanchar ou maldito nó pelos olhos.
Buda tinha razão, não dá para ser feliz quando há tanta dor em volta. Não dá pra desligar simplesmente, fingindo que tá tudo bem, tentando imprimir o mesmo ritmo, festejando, sorrindo. Parece até que penduramos um manual de autoajuda no pescoço, com medo da punição. Parecemos prisioneiros de Hitler, num campo de concentração, obrigados a marchar, marchar, marchar, mas morrendo de medo de pisar na granada chamada coronavírus.
Tudo bem. Ficar parado numa guerra também é morte. Mas a pergunta é: como chegamos a esse ponto? Quem nos condenou? Quem nos fez correr demais, nos movimentarmos demais? A inconsciência coletiva, a cegueira da qual falava Saramago?
Pensei nisso enquanto comprava um picolé bem gostoso na farmácia, cumprindo o protocolo da minha cegueira. Também posso brigar com o sistema. Sou prisioneira. Sinto-me, às vezes, como aqueles presos condenados à pena de morte, me permitindo um último desejo: Magnum vegano, recheado de amêndoas, por favor!
Quanto tempo temos? O meu coração diz que esse tempo sempre foi e sempre será o de Deus, restando a nós apenas um exame de consciência, para estarmos prontos quando chegar a nossa vez de tombar, amanhã, ou daqui a cem anos.
No mais, ao deixar de ficar perdendo tempo com julgamentos, devemos focar no que interessa e começar a nos responder aquela questão levantada pelo Paulinho Moska: meu amor, o que você faria se só te restasse esse dia? Se o mundo fosse se acabar, me diga o que você faria?
Não falei nada com coisa nenhuma, mas essa é a lógica da nossa louca vida atual. Torcemos os fatos, alteramos verdades, isolamos, aglomeramos e, em todas as opções, muitos de nós estão morrendo.
Só Deus! Só Deus pode vencer o sistema.

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