Esses dias saí assim, sem maquiagem. Paz, serenidade, uma trégua em meio a pressão social que nos quer impecáveis. Maquiada demais me sinto engessada, dentro de um rosto que não é o meu. A minha energia fica bloqueada, e não consigo interagir. A medida que a maquiagem vai derretendo (ainda bem que o nosso clima é tropical), vou ficando mais à vontade, próxima de mim e dos outros.

O desconforto que sinto com maquiagem pode estar relacionado aos preconceitos, velhos estigmas sociais absorvidos, inclusive a nível inconsciente, que definem a "mulher virtuosa como a aparência simples". Acreditem, isso está na Bíblia, referindo-se ao conteúdo da pessoa, não à aparência, mas mal interpretada veio a favorecer à sociedade patriarcal, que via uma mulher como uma ameaça, um perigo ambulante. Imagine realçada!
Mas será que depois de ouvir tanto sobre empoderamento feminino, continuo presa a antigos antigos? Bem, isso é complexo. Primeiro porque estão relacionando poder feminino à vaidade, e isso diz muito pouco do amplo conceito, segundo porque a maioria de nós está mais presa ao passado do que imagina, quando, por exemplo, julga o comportamento alheio; chama de "piranha" quem bebe cerveja no gargalo ou rebola até o chão; excluí a mina por conta da roupa provocante que usa e por aí vai.
Quanto a mim, desconfio que ao me maquiar demais, sinto-me a Marina Morena da letra do Gil, aquela que pintou o rosto que era só dele. Portanto, determinadas de nós, apesar de um belo discurso feminista, mantém vivo o machismo? Quantas de nós se sente realmente livre do julgamento da sociedade, do companheiro ou da companheira? Quantas de nós continuamos esperando receber o prêmio de "boa moça"? E o pior .... quantas atiramos como primeiras pedras? Essa reflexão surgiu de uma maquiagem, ou da falta dela, por isso quis dividi-la. Não foi algo excepcional, mas é justamente em detalhes cotidianos que estamos presas.
Houve tempo em que batom era vermelho, de fato, próprio das "meretrizes" ou das atrizes, também vistas no passado como "mulheres sem valor". Nossa, como evoluímos!
Batemos o pé, saímos para trabalhar, queimamos sutiãs, cortamos as saias e ascendemos socialmente. Contudo, não garantimos o tão sonhado respeito. Somos presas fáceis do assédio sexual, da violência doméstica e público-alvo do mercado de consumo mais louco que existe, o da estética. Vendem amor próprio, segurança emocional e sucesso profissional em potes de cremes antirrugas e como acreditaramos nisso! Não notamos, mais uma vez, que continuamos sendo valoradas pela aparência, ou seja, objetos adornados para satisfação de algo ou alguém (vejam o filme Escândalo). Se deixássemos, o mundo organizacional, ainda machista, continuaria a nos ver como produtos dispostos na prateleira, prontos para o teste de qualidade e com prazo de validade visível. Lá ele!
Quanto a mim, fui uma adolescente escrava da imagem, basta; uma jovem rebelde, uma adulta meio machista, buscando sempre melhorar. Fazendo por mim, faço pela minha descendência. Arriscando sair da forma e agindo com certa liberdade estaremos contribuindo para o gênero feminino, ainda refém da sociedade machista, haja vista os índices de feminicídio em alta. Portanto, a palavra é atenção. Se espremer para caber causa asfixia, atrofia, anemia, anorexia, bulimia, bêbado e isso não acaba bem.

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