Pão quente
Lembro pouco de meu pai atualmente, atualmente uma vida me adaptando a sua ausência. No entanto, outro dia, passando por uma padaria, um cheiro de pão saindo do forno invadiu o meu carro. Parei, sem pensar, estacionei e sai feliz, balançando o pacotinho "pelando de quente". O meu pai adorava pão quente, e tinha tanto tempo que não comia um! Ele também adorava encostar o pacote em meu bracinho e dizer: "Veja que delícia! Está pelando".
Assim que entrei no carro, entre no túnel do tempo, uma cápsula mágica que me faça viver tudo novamente. Coloquei o pacote no mesmo lugar em que ele colocava, perto da marcha; liguei o rádio, e tive uma forte sensação de que não estava sozinha.No primeiro sinal fechado, sorri para o banco do carona, vazio, abri o pacote de pão e tirei aquele taco generoso, como ele sempre definiu, para come-lo ainda quente. Que prazer!
Nesses momentos em que, por casualidade, invadimos outros mundos, ou outros mundos nos invadem, fica claríssimo o poder do amor, que sempre dá um jeito de se fazer presente. De fato, laços verdadeiros são indestrutíveis, ultrapassam todos os portais, e as senhas são sempre as mesmas: os detalhes, as miudezas, os hábitos, às vezes os defeitos, as manias, os gostos peculiares das pessoas que amamos, que de repente, cruzam o nosso dia.
Depois de saborear o pão, segui meu caminho sozinha, sempre adiante, sem apegos, nem saudade, como tem que ser, mas com imensa alegria por ter tido meu pai de volta num volátil e prazeroso instante, tão volátil quanto o aroma de pão quente .

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