Parabéns para nós, banqueta azul

 Até hoje me lembro quando nos conhecemos, um sábado, fim de mês, como vários outros, salário já na conta, e corria para gastar na Praça Saens Pena. Naquele dia estiquei até a Almeida Prado para pegar um remédio, quando me deparei com essa coisinha linda, exposta na calçada. Perguntei o preço, mas não tinha levado o suficiente. Naquela época não havia débito, nem camelô tinha maquineta de crédito. Ou você tinha dinheiro, ou nada feito. Quando dei as costas o vendedor falou: - se apresse, essa é a última, vendendo, vou embora e não sei quando retorno, pois somos de Mariana / MG. Tinha sido amor à primeira vista, ela tinha que ser minha. Fui correndo até o ponto, peguei o ônibus, cheguei em casa, contei o dinheiro e ia saindo quando a minha mãe falou: - não vai nem almoçar? Tava com fome, comi e sai. Peguei o 422 e fui andando, meio correndo, até o camelô. Ufa! Ela estava lá. Comprei, peguei um táxi, cheguei no prédio, abri todos os portões, entrei no elevador arrastando-a pelo braço. Não vou dizer que fiquei sem dormir, porque ficar sem dormir é algo que não acontecesse na minha vida. Mas, posso dizer que fiquei horas admirando-a, e, até hoje, me pego surpresa com a sua beleza. De lá para cá, somos inseparáveis. Ela está presente em todas as mudanças, todas as configurações, como também já mudou de função por diversas vezes na nossa vida. Já foi porta-chaves, recepcionista, oratório, e hoje é a fruteira da cozinha. O importante é que fiquemos juntas. Se eu a traí? Acho que sim, a cada vez que compro um móvel novo, uma decoração diferente, ela deve se sentir mal. Mas se me mudasse hoje, a coisa terceira que levaria era ela, perdendo apenas para a minha filha e a minha cachorra. Quando alguém chega aqui em casa a paquera com ela, eu digo logo: - tira o olho, que essa aí é minha. É impossível amar sem sentir ciúmes. Portanto, apesar de não ser um ser vivo, uma cômoda azul de Mariana me ensina muito sobre o amor. Amar talvez não seja “não trair”. Somos humanos e tão falhos, tão imperfeitos. Mas amar é seguramente “não abrir mão”. “Não abrir mão” quer dizer, em outras palavras, “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”.

Parabéns para nós, banqueta azul.

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