Sobre traição

 Não gosto da explicação de que Judas traiu Jesus porque “estava escrito”, “tinha que ser assim”.

Quando Jesus deu a Judas a função de guarda do dinheiro que alimentaria o grupo e os seus seguidores, o fez sabendo das inclinações do discípulo para o roubo e outros defeitos morais. Mas ali o filho de Deus enxergou a possibilidade de transformação de seu discípulo numa pessoa melhor.

Judas deixou a oportunidade passar, traindo não apenas o Messias, mas ele próprio e o grupo em 13 moedas, uma para cada. A traição foi geral. E a pior de todas talvez tenha sido a traição a si próprio, a negação à chance dada pelo próprio Deus de renascer. A inconsciência total da chance ofertada por Jesus fez Judas continuar afundado no seu carvão, preso a sua própria miséria. Por isso acho tão triste a trajetória de Judas.

Diferente de Judas fez o herói da ficção de Victor Hugo, Jean Valjean, da obra Os Miseráveis. Pego pelos guardas roubando a prataria do mosteiro que o familiara, sorrateiro como um rato pela madrugada, Jean é inocentado pelo padre, que diz mais ou menos assim: “Liberem-o! Não é roubo. A igreja lhe ofereceu esse presente ”. A partir dali, o protagonista de Os Miseráveis ​​começa a se transformar num homem recheado de virtudes. Ele agarra a chance dos céus para renascer e fazer diferente.

Quanto à traição que Jesus precisaria experimentar, imagino que um lunático seguidor poderia fazê-lo, ao esconder-se na árida paisagem da última pregação, e arrastar-se até chegar ao esconderijo, no horto das Oliveiras.

Mas não foi assim, traiu quem olhava dentro dos olhos de Jesus todos os dias, quem dormia ouvindo a respiração do seu Mestre, quem teve a melhor das chances de se transformar, mas não o fez porque não quis, não pode, ou não conseguiu , e não porque “precisaria ser assim”. Outro Judas haveria de chegar; eles sempre chegam.

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