Trimmmmm

Por mais de 2 décadas atendi pelo número 571-2135 e os 75 metros quadrados da minha casa pareciam infinitos até ouvir "alô!". Quantas sensações um trim-trim puderam proporcionar! Você vai dizer que o zap tem mensagens de voz, pode mostrar uma pessoa do outro lado, mas não é a mesma coisa. A emoção rapidamente se esvazia, tão volátil quanto o meio utilizado.

Com relação à privacidade, tão necessária a amigos, parentes e casais, o telefone limitava o acesso a nossa agenda. Ninguém sabia onde deseja, com quem quer e o que fazíamos. Além disso, o silêncio entre uma e outra ligação acabava por aproximar mais as pessoas. Já o celular é invasivo, inconveniente, rouba-nos a intimidade, o tempo de maturação das próprias sensações.

A espera pela ligação conduzia-nos à reflexão; testava-nos a paciência, uma autoconfiança, uma saudade; ensinava-nos sobre frustração e tolerância. Qualquer espera faz isso, nos leva ao universo particular. Agora na pandemia ficou evidente, nunca refletimos tanto, porque estamos em "pause", e talvez essa pausa seja uma chance única que temos de um futuro feliz.

A pausa nos dá a exata dimensão do que sentimos, nos faz ouvir como palavras que nascem dentro de nós, para daí resolvermos se dize-las ou não. Já o corre-corre trouxe graves consequências para a comunicação humana.

30 minutos por dia sem o celular dá para tirar a poeira daquele livro, desenhar, ouvir música sem fones, escrever no diário, fazer uma carta, cuidar da horta, bordar ou simplesmente olhar o pôr do sol. Existe uma infinidade de rotas rumo a nós mesmos.

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