O bagaço da laranja

 Não sei quem me avisou de uma outra metade de mim, solta por aí, que precisava achar. Acreditei piamente nisso, e desde muito cedo passei a me procurar. Mas quanto mais me procurava, mais me perdia.

Às vezes me encontrava. Precisava crer que havia me achado, pensava. Sozinha, seria diluída, não valeria muita coisa, um suco ralo de mim mesma, algo que não queria experimentar. Pensava, mas era exatamente o contrário. Não era sozinha que corria o risco de me diluir, era acompanhada. Confortada, junto de alguém que jurava que me completava, me esvaziava.

Mas a natureza é sábia, e o remédio é a solidão para juntar metades, fatias e cacos, trazendo de volta a inteireza esquecida. Com dor e muito trabalho, compreendi que achar a outra metade da laranja é papo super furado. Ser inteira é a nossa natureza, não precisamos de nada para nos completar, nada falta, não há nada a ser consertado.

Pensei nessa história de "achar a outra metade" fazendo esse suco bem forte, e decidir que elemento o sabor de felicidade. Do amor e da felicidade ninguém deve abrir mão, mas na mesma proporção de não abrir mão de si mesmo. Fazer concessões faz parte do trato, desde que nesse jogo delicado não se permite ser dividido, fatiado, repartido, espremido, ou sugado, para não correr o risco de sobrar de si apenas o "bagaço".

Comentários

Postagens mais visitadas