Coragem, eu existo!

Todo dia ela ia a minha porta. "Moça, tem alguma coisa pr'eu comer?". Impaciente, sempre dizia "não". Mas vaidosa, ela não desistia: "Serve um creme de cabelo!". Sempre me perguntou pelo raio do creme, nunca perdeu nenhuma oportunidade. Todo dia tentava, eu negava. Um dia abri a porta e dei-lhe um creme de cabelo pela metade. Ela é grande, bem grande, tem medo. Mas a encarei firmemente: __ por hoje basta. Ela sorriu com humildade. Depois de um tempo dei perfumes e desodorantes também usados, alguns trocados, mas nunca tinha comida. E assim, continuamente, ela foi voltando. Às vezes sumia, às vezes aparecia. Um dia finalmente dei feijão, cuscuz, arroz e uns trocados, e ela completou a feira com outros artigos que havia coletado na redondeza. Ela é grata. É tão humilde e obediente, que outro dia me peguei pensando nela no mercado, como se já fosse da minha família. Comprei-lhe creme de cabelo e sabonete novo.

Fazia tempo que ela não aparecia. Pedi para ela dar um tempo, pois não posso atende-la sempre. Mas confesso que me fez falta, e apareceu justamente numa hora em que estava chorando. Ela desfilou, ficou triste, não me pediu nada. Mas fui lá dentro e voltei com uma cesta básica inteirinha só para ela, que havia comprado fazer dois dias. Naquele momento, li em seus olhos uma única palavra: esperança! A força que nunca cansa, persiste, insiste, todos os dias, cordialmente, a nossa porta e nos diz: coragem, eu existo!
Não sei o nome dela, sempre esqueço de pergunta. Vou chama-la de Esperança, pois faz falta, precisa vê-la, mesmo que vez em quando, para nos embelezar e, principalmente, não podemos esquecer, de jeito nenhum, de alimentá-la.

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