Roupas, passaportes para a memória

 A memória encontra vários recursos. As roupas são um exemplo de gatilhos para memórias afetivas. Costumo fazer isso, guardar momentos, bons ou ruínas, pela roupa que estava usando.

Lembro quando comprei o maiô mapa mundi, no quarto piso do Riosul. Lembro da atenção da vendedora de cabelos cacheados e do sabor do crepe do Chez Michou, que comi logo após a compra. Os tibuns que a peça me proporcionavam eram livres e confortáveis, coisa de roupa bem feita. Isso é importante.

Lembro do vestidinho branco e preto, feito por uma costureira em Lagarto, às pressas, para a missa de meu pai, e como o experimentei meio inerte, sendo vestida por outras pessoas.

Lembro também do horrível vestido marrom, da formatura em jornalismo, combinando com a minha sensação de fracasso por não ter concluído a monografia a tempo, restando-me seguir mais um período na faculdade. Tudo era contraditório, a roupa, o curso, o momento. Por que estava ali?

As memórias de amor são as mais detalhistas. Lembro da roupa, do sapato e até do brinco que estava usando quando conheci Rafael, o pai da minha filha. Lembro como estava me sentindo linda, maravilhosa dia. Como jogava o cabelo pra lá e pra cá e como a roupa era fiel a minha personalidade. Jeans Saia, camiseta, tênis e um brinco enorme, bafo, colorido e brilhante.

Mas a melhor lembrança talvez seja a da minha velha calça Ronys, o "jeans do cavalinho", com a qual fiz a minha primeira matrícula numa aula de dança. Usei-a com uma blusa de tecido floral em tons azuis, herdada da linda Isabela Queiroga. Sim! Eu e minha irmã elevada usava roupas de segunda mão, e a sacola que chegava da casa dos Queiroga era uma preferida, pelo bom gosto e conservação das peças.

O dia frio, mas ensolarado, do outono carioca, a rua Teodoro da Silva, uma pequena academia de bairro, o frio na barriga, as pernas bambas dentro do jeans, o risinho tímido ao ver o professor, tudo isso está guardado cá dentro, graças a velha calça Ronys.

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