Sobre lutos

A tesoura da foto provavelmente já existia antes de mim, e ficava largada na mesa de trabalho do meu pai. Muitas coisas foram vendidas, outras se perderam com o tempo, mas ela está comigo até hoje, faz parte do meu ritual de inspiração, que um dia foi saudade, melancolia e também dor dilacerante; o luto que se transformou.

Já vivi muitos lutos, portanto, digo com propriedade: como tudo na vida, o luto não acaba, se transforma em outra coisa. Ele começa na dor dilacerante, passa pela melancólica saudade e vai até a inspiração permanente; sim, permanente, pois quem amamos estará sempre acessível dentro da gente.

Com essa tesoura corto o que não me serve mais, cartões de crédito, fotos que não pretendo guardar. Com ela podo plantas, para estimula-las ainda mais, coisas que quero desenvolver. Também crio novas coisas, caixas, colagens, cartões, capas de caderno. Todas essas coisas partem do luto, que um dia foi dilacerante, depois doído, melancólico, hoje inspirador.

Com o tempo, na hora certa, joga-se for ou doa-se o que não vai servir dali pra frente. Com o tempo se selecionar bens imateriais, valores, que se pretende desenvolver, deixar crescer, repassar, como, também, o que se pode criar, totalmente novo.

"Fique bem" é o que todos dizem aos enlutados. Melhor seria dizer: comer a montar o seu ritual; ele será a senha secreta para a sua fonte inesgotável de inspiração.

Dedicado, com amor, a todos aqueles que passam por momento tão delicado.

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