Vamos acender nossas luzes

 Todos os anos temos uma chance de renascer, transmutar o sofrimento da cruz em luz. E que Páscoa, meus amigos! Arrisco dizer que Deus está clamando: desperta! E falando em despertar, não posso deixar de lembrar de um ateu num dia santo: José Saramago. Que Deus o guarde em bom lugar, pois era muito iluminado.

Uma obra "Ensaio sobre a cegueira" é uma grande contribuição que Saramago deixa para a humanidade. Fala de uma epidemia pela qual todos iam cegando. No desenrolar da trama, os personagens percebem que estavam cegos de verdade quando enxergavam. No final das contas, a cegueira os desperta para o essencial. Em outras palavras, Saramago deu vida a uma frase de Exupéry "o essencial é invisível aos olhos". Isolada, mesmo contra a minha vontade, pela primeira vez vivi uma quaresma de fato. Jejuei, mesmo que não seja da falta da refeição, mas da ausência de pessoas queridas; orei, mesmo que não seja Pai Nosso, mas através do "bom dia" que faço aos céus, todos os dias, do meu pequeno quintal, como se quisesse abraçar Deus e dizer: Obrigado, Senhor!

De repente, perdi o interesse de julgar a mim ou a quem quer que seja, tudo me parece pequeno e sem importância, assim cumprindo na prática um dos ensinamentos do Mestre: "não julgueis, para que não sejais julgados". Prefiro o ser humano que tenho me tornando quase 20 dias, alguém que realmente se importa com a dor do outro, ainda que não seja inteiramente por bondade, mas porque, finalmente, se coloca exatamente em seu lugar. Para a indiferença e o egoísmo finalmente o mundo diz "não, você não é bem vindo". Já era tempo, Deus sabe o que faz.

Água, luz elétrica, comida, remédio, família e amigos a salvo é suficiente. Deus está aí, na essência, no básico, no mínimo que se torna macro.

Ao tempo que a quarentena me limita, a quaresma me alarga, e essa é a verdadeira Páscoa. Por mais paradoxal que isso possa parecer, a minha cruz se faz luz.

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