MAMÃE NOEL
Domingo é a cara dela, ainda mais com a proximidade do Natal, época em que dona Astréa, minha doce tia Yaiá, reaparece nos meus pensamentos.
A dedicatória de 1996 diz: "Você está vendo como a sua tia fica tomando nebulização?". Ela quis dizer feia, estranha, esquisita, qualquer coisa assim, pois vivia falando sobre os estragos que a velhice lhe causara. Para mim, que a comparava ao porta-retrato, ela continuava linda em cada detalhe.Tudo, exatamente tudo, nela me agradava; os seus 90 e tantos quilos, o seu cabelo de nuvens, o poço verde dos olhos, os dedos tortos cheios de anéis, as manchas senis que odiava, o aroma de banho constante, o hálito de cravo.
Tudo nela eu suportava; a hipocondria, os queixumes, o temperamento melancólico, a mediunidade reprimida, os medos, principalmente o da morte, o amor por Roberto Carlos e Silvio Santos, cujo programa dominical não perdia. Que mau gosto!
Em sua casa me senti numa Fortaleza, ou Palácio, uma princesa protegida, amada, acolhida de forma integral e irrestrita. O cheiro da cozinha pilotada por Narcisa, os pratos de plástico em tons pastel dispostos à mesa, os móveis escuros, o Jesus que nos apontava o coração, acima da porta de entrada, tudo, exatamente tudo, me convidava a ficar.
Em frente à cadeira de balanço de balanço histórias, estórias, casos, fofocas, novidades e mudanças da melhor Dona Benta que alguém podia ter. Naquela sala, vivi Natais memoráveis, fartos de comida e afeto, com direito a presença da própria Mamãe Noel, que era o nosso maior presente.
Certa vez ela me disse, preocupada, que só sabia ser assim, doce, gentil, e que seu irmão a advertia: "Cuidado, Yaiá, doce de coco demais enjoa!". Acredito que o meu tio estava enganado; o que enjoa mesmo é o amargor.
Por isso, todo Natal a sinto tão perto. A sua lembrança é o próprio amor aquecendo o meu coração, relembrando-me que nada vale a pena se não tiver amor. Com ela aprendi o verdadeiro significado do Natal.

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