COMPORTAMENTO

OUTRAS PALAVRAS

Você sabe o que é ksal, blza, eh, ggante, vlw, flw? Se não sabe, não domina o internetês. As palavras significam, respectivamente, casal, beleza, é (verbo ser), gigante, valeu e falou, ditas, assim, bem rapidinho. Num mundo cada vez mais veloz, onde se quer informar o máximo, num mínimo de tempo, surgem novas formas de comunicação humana, e estar alheio às mesmas não é a melhor saída. Interagir com os novos signos linguísticos, sem se esquecer da importância da língua formal, definitiva para a formação do indivíduo, talvez seja a atitude mais sábia.

Segundo reportagem publicada no jornal gaúcho Zero Hora, as abreviações como “blza” aceleram a mensagem; a troca de letras, usada em “ksal”, por exemplo, serve para aproximar a palavra escrita do som falado, e assim facilitar a compreensão; a ausência de pontuação, substituindo-se o acento por outras letras, tipo “eh” ao invés de “é” acelera a digitação, pois não há a troca de função do teclado e, finalmente, as interjeições e repetições dão emoção ao dito, na tentativa de aproximar o diálogo, como “alôooo”, “te adoroooo”, “hauhauhauhau”. Ou seja, preconceitos à parte, existem motivos para o surgimento de novos signos linguísticos, e torcer o nariz para as novas alternativas de se falar é tempo perdido, já que a língua acompanha a história da humanidade.

Antes da internet, existiam apenas dois tipos de linguagem; a verbal, dividida em formal, acadêmica, e coloquial, chamada de “o português das ruas”, com gírias e ditos populares, e a não verbal, dos gestos, sons e pinturas, que representava 65% da comunicação humana, ou seja, é mais apreendida que a linguagem textual. Na era da net surgiram novos meios de informação com textos, imagens, sons e animação, surgindo daí a linguagem multimodal, inclusive com recursos tridimensionais, o que põe em cheque o texto formal. Como competir com tantos recursos?

Verdade seja dita, até a Alice, aquela lá do País das Maravilhas, já reclamava de textos sem gravuras, quando começou a sua viagem ao mundo imaginário, justamente por se enfadar com a leitura textual. Segundo a personagem de Lewis Carroll, “de que serve um livro sem figuras nem diálogos?”. Se assim pensava uma menina daquela época, imagina hoje, as nossas crianças, diante da tecnologia atual? Covardia, não é? Como diz Pedro Demo, na sua obra Os desafios da linguagem do século XXI para o aprendizado na escola, “hoje temos mp3, DVD, televisor, internet. Essa é a linguagem que as crianças querem e precisam, e ela não excluí o texto”. Segundo o autor, o papel do educador é fundamental no sentido de aceitar as novas possibilidades de comunicação e interação, estando, contudo, preparado para impor limites para que a nova linguagem não interfira negativamente na formação do indivíduo.

Ano passado, como educadora no meu lar, resolvi fazer um experimento. Comprei dois livros para a minha filha de 12 anos. Primeiro, o texto clássico de As aventuras de Alice no país das maravilhas, do Lewis Carroll. No final do mesmo ano, como observei que a primeira leitura havia emperrado, lhe ofertei Muito mais que cinco minutos, de Kéfera Buchmann. A leitura foi concluída em um único dia. Mas o que é que a Kéfera tem, que o Carroll não tem? A menina curitibana de 23 anos tem um canal no Youtube, que neste exato momento conta com 7.998.608 de seguidores, tem também twitter, snapchat e outros canais igualmente bombásticos, além de ter sido a sensação na 17ª edição da Bienal Internacional do Livro do Rio, reunindo 3 mil pessoas (mais transmissão ao vivo para 12.800 internautas), no Riocentro, quando lançou a autobiografia que caiu nas mãos e nas graças da minha filha. Isso não era bem o que eu queria, devo confessar, pois, como jornalista, sei da importância de um texto clássico para a formação do indivíduo, mas, apesar dos xingamentos e da linguagem extremamente coloquial, há no texto da Kéfera duas grandes virtudes morais, que para mim, como mãe e educadora, superam qualquer palavra: franqueza e autenticidade.

CLÁSSICOS REPAGINADOS

Para diminuir a angustia da Educação e atrair o público infanto-juvenil a conhecer as obras clássicas, o mercado literário tem lançado adaptações com ilustrações, ou mesmo em forma de histórias em quadrinhos, que têm sido adotados pelas escolas do do país. Alguns exemplos como O morro dos ventos uivantes, de Emily Bronte, adaptado por Ligia Cademartori, ou os complexos textos de Júlio Verne e Victor Hugo, adaptados por Cláudio Fragata e Walcir Carrasco, respectivamente, têm feito o jovem aluno absorver o seu conteúdo da obra, ou parte dele. Com a quantidade de informação que se precisa processar atualmente, ante um mercado altamente competitivo, as adaptações possibilitam o conhecimento do antigo universo literário, pois não sendo assim, qual a possibilidade de um aluno parar tudo para contemplar os originais de Os Miseráveis, com a brochura que supera a Bíblia Sagrada, durante o ano letivo?

Na minha adolescência, lá nos anos 80, consegui ler os dois volumes de Anna Karenina, de Leon Tolstoi, em exatos 12 meses, e não havia internet ou rede social, canais do Youtube ou qualquer coisa que desviasse a minha atenção, a não ser os filmes de sessão da tarde e as provas escolares. E hoje? Quanto tempo levaria uma menina de 16 anos para lê-lo, mesmo que em versão digital? Seguindo esse raciocínio, é válida a produção de adaptações fiéis aos autores, pois muito pior seria o resultado de uma educação sem passado, sem a referência da linguagem formal e das narrativas clássicas que inspiram, possibilitam reflexões profundas, abordam questões universais importantes, melhoram o nosso vocabulário, escrita e fala.

Mas o assunto é polêmico. Para alguns literatos, essas adaptações soam como “resumos” das obras e verdadeiros insultos. No seu artigo sobre Por que não ler adaptações para jovens?, Gustavo Bernardo, Doutor em Literatura Comparada, Professor no Instituto de Letras da UERJ, diz que “os resumos facilitadores começaram com crescimento da "mentalidade reader’s digest", nome alusivo a uma revista popular americana que resume livros para um público sem tempo e sem disposição para ler e pensar, justificando que a revista faça esse trabalho "pesado" ao lhes entregar os textos resumidos". Contudo, na visão de Bernardo, a adoção de resumos para estudantes os transformariam em “seres não pensantes”, numa sociedade futura igualmente idiota e extremamente limitada intelectualmente, o que poria a humanidade em risco.

Portanto, se não há como impedir o surgimento de novas formas de comunicação, que sigamos teclando e dizendo bd, ao invés de bom dia, mandando bjos, ao invés de beijos, curtindo as novidades da rede, mas, sobretudo, lendo um livro, texto ou revista de vez em quando. Se possível também, admire uma obra de arte e leia um grande clássico enquanto posta a sua última selfie. Utópico demais? Em último caso, se não der tempo para ler, que tal assistir aos filmes baseados nos clássicos, com bons roteiros adaptados? Tudo é válido para enriquecer a linguagem.


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