OPINIÃO
PREPAREM AS SUAS ARCAS, NOÉ SUMIU.
A Rio + 20 acabou e eu continuo aqui, na praça do meu bairro, pensando nas soluções apontadas para salvar o planeta, quando o certo mesmo seria pensar em arborizar a minha rua, o meu quintal, proteger a praça do meu bairro. E se todos pensassem assim, talvez não precisássemos pensar em salvar o mundo, pois ele já estaria em segurança. Apesar de ser uma visão simplista, inocente, é mais palpável do que as grandes decisões governamentais e não governamentais acerca da sustentabilidade. Os 188 países que participaram da Conferência Internacional Rio + 20 assinaram, de fato, o documento da Organização das Nações Unidas sob o título "O futuro que queremos", texto esse que, diga-se de passagem, não teve tradução para o português (não é idioma oficial da ONU). Que falta de diplomacia! Abrimos as portas, investimos num evento que ninguém quis patrocinar e, mais uma vez, jogamos dinheiro fora. Mas isso é o de menos. O pior é saber que as célebres páginas de "O futuro que queremos" vão amarelar, sem a efetiva solução para os problemas ambientais que assolam o mundo.
Soluções concretas não
foram definidas, há somente boas intenções. Os Estados Unidos divulgaram o
investimento de U$ 20 bilhões de dólares para a África, com a finalidade de
fornecer energia elétrica para grande parte da população daquele continente,
que vive até hoje às escuras. Ponto para os americanos. Enquanto isso, a África
do Sul, ali, dentro do continente mais pobre do mundo, anunciou a ajuda aos
países europeus que estão em crise econômica. As ONG's pediam mais
comprometimento dos representantes de Estado, alegando que esses delegavam as
suas tarefas aos conselheiros e secretários. Já os Chefes de Estado se
esquivaram, dizendo que as propostas eram muito ambiciosas e o mundo está em
crise. Os trabalhadores rurais queriam salvar o meio ambiente, mas primeiro
queriam salvar a sua pele, o seu ganha pão, enquanto que os ecologistas, bem
mais radicais, lutavam pela manutenção da floresta, intacta, sem se preocuparem
com os aspectos sociais como a fome, a pobreza e o desemprego. Em outras
palavras, ninguém se entendia.
Nos primeiros dias, o
Secretário de Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc, estava animado:
"Se conseguirmos o compromisso dos Estados em diminuir o consumo dos
combustíveis fósseis e a total proteção dos oceanos, ganharemos a Conferência".
Mas no final do evento, o Minc jogou a tolha: “Cada um foi com a sua
machadinha tirar o que não queria. Quatro pescadores de baleia tiraram a
proteção dos oceanos. Oito da OPEP foram lá e tiraram o fim dos subsídios
ao combustível fóssil, o veneno que aumenta a febre do planeta”. Ou seja, Minc
revelou o que todos nós já sabíamos. Quem está preocupado com o mundo, enquanto
ganha dinheiro? Como parar o império custeado pelo ouro negro? Os oceanos são mais
importantes para o resfriamento do planeta do que as florestas. Então porque só
se fala em Floresta Amazônica na mídia internacional, como se ela fosse a
salvação do planeta? Porque apesar da floresta dar muito dinheiro, e também já
ser muito explorada, os oceanos a supera em lucro, e não vai ser um bate-papo
entre governantes a frear o sistema.
Assim como o Carlos
Minc se tocou, todos nós já nos tocamos de que não existe nenhum Noé por aí
disposto a salvar os bichinhos e a humanidade. E que cada um, se for esperto,
que construa a sua arca. Em outras palavras, o Brasil que cuide do desmatamento
desenfreado da Amazônia; das queimadas em todo o país; que proteja os mares de
sua abrangência, onde ainda há rica vida marinha; que trate de despoluir os seus
rios e barre outros projetos suicidas como este que transpõe o Velho Chico; que
encontre formas de crescer, de se desenvolver, sem fenecer. Sabemos que nem
assim está garantida a sobrevivência futura, mas é o que se pode fazer.

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