CENÁRIO
AO MESTRE, COM CARINHO.
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| Cleomar Brandi |
___ Bom dia, sou Patrícia.
___ Ah! é a nova repórter, colega de Sueli (Carvalho)? - falou ele, todo cheio de energia.
___ Isso.
___ E então? Vamos pra rua? – disse direto.
E eu, morrendo de medo disse:
___ Agora?
__ É - disse-me ele. Repórter aprende é na rua.
E assim foi. Acompanhei o motorista, entrevistei as pessoas e o texto saiu, não sei como. E o melhor, ele gostou. Que alívio!!!
Segundo dia, calçadão da João Pessoa para fazer um balanço das eleições municipais que iriam acontecer naquele ano. Ok! Vamos lá! Sol a pino, derretendo os miolos e eu tentando lembrar tudo que ele havia dito, todos os alertas e tópicos interessantes. Consegui mais uma vez.
E assim seguimos por 2, 3 meses, talvez, não me lembro. A cada dia o cara (sem jeito de chefe e ao mesmo tempo tão firme) me estimulava mais, seja pelo carisma estonteante (quem o conheceu, sabe do que estou falando), seja pela inteligência, perspicácia e outras qualidades humanas atualmente em extinção. As suas pautas eram verdadeiras matérias: completas, interessantes e gostosas de ler. Cumpri-las, era um exercício maravilhoso, um prazer. Acordava com um misto de alegria e ansiedade, que nem menina apaixonada, para saber o que ele ia me aprontar, o que me reservava naquele novo dia. Acabada a missão, saia voando para o terminal, parecia que os pés não tocavam o chão, cheia de orgulho de mim.
E assim, em tão pouco tempo, o mestre Cleomar leu a minha alma, feito um psicólogo, bruxo ou guru de plantão, sempre de plantão. Descobria rapidinho o fraco dos outros, e forte também. Com os olhos vivos e a audição apurada, trabalhava com os sentidos em alerta e o coração borbulhante de entusiasmo.
Um dia cheguei atrasada, esbaforida, com medo de levar uma bronca, e ele, mais uma vez, me surpreendeu:
___ Patrícia, vou te dar um presente!! Hoje é dia do Folclore e só 2 colégios lembraram disso. Você vai lá, conversa com os alunos, os professores, o público convidado, cobre as gincanas, as manifestações e traz tudo. Vamos mostrar a importância do Folclore para o povo, o seu encantamento...... e por aí vai.
Fiquei paralisada. Era tudo o que eu queria e não tinha feito, até ali. Fiz uma bela matéria. Trabalhei e me diverti ao mesmo tempo. Tudo fluiu, sem esforço. Parecia até despedida. Dito e feito. Após uma semana, fui demitida do jornal.
Antes de sair, triste, muito triste, não pelo emprego, mas pela interrupção do curso intensivo de Jornalismo com um monstro sagrado e pessoa grandiosa, percebi um papel dobradinho preso à máquina de escrever. Lá estava escrito:
“Querida, não esquenta. Às vezes acontecem coisas que não compreendemos. O seu trabalho é bom e isso é o que importa. Siga em frente com os seus sonhos. Com carinho. Cleomar.”
Pronto. Era o que eu queria ouvir da pessoa certa. Não queria ouvir nada, de ninguém. Só a opinião dele me importava. Aquele papel me deu uma força fenomenal, restaurou a minha estima. Guardei o bilhetinho durante anos. Ele, como que encantado, me dava forças para lutar por um trabalho digno.
Hoje, sou eu que digo ao Mestre:
Querido, não esquenta. Às vezes acontecem coisas que não compreendemos. O seu trabalho foi mais do que bom, fenomenal, e você, inesquecível. Siga em frente, pelo campo dos girassóis. Muitas aventuras te aguardam. Com carinho, uma das alunas que teve a felicidade, a sorte, o prazer de um dia te conhecer.


Só os verdadeiros Mestres são capazes de tamanha gradeza e despojamento, por isso são Mestres na essência da palavra. Parabéns a você por reconhecer o quão importante ele foi para sua vida! Gratidão é uma característica de quem é grande. Você é!!
ResponderExcluirUm abraço,
Nailson Moura
Pat já sabia que vc escrevia bem, afinal DNA é o que não lhe falta, mas seu texto foi o mais lindo que li esses dias sobre o inesquecível Cleomar.Bjos"
ResponderExcluirPatricia Muito obrigada por querer bem a meu tio. as suas palavras descrevem realmente o jeito dele, a energia de viver e a alegria diaria...realmente era contagiante. mais do que saudades, deixará exemplo de que a vida é realmente para ser vivida.E assim ele fez!
ResponderExcluirPatrícia, querida!Linda homenagem para uma grande e fulgurante pessoa. Um abraço.
ResponderExcluirSei do que você está falando. Cleomar foi meu chefe de Jornalismo na Rádio Educadora da Bahia nos anos 80. Era puro jornalismo feito com prazer, sem ditadura ou constrangimentos. Parecia uma reunião de amigos se divertindo. A Rádio tinha o maior Ibope de audiência. Éramos bons; e eu ainda vejo Cleomar naquela sala, sorrindo, brincando...
ResponderExcluirLindo! Fiquei muito emocionada. Saudades!
ResponderExcluirPá, você a cada dia me surpreende e me deixa cheia de orgulho e felicidade,pois está deixando seu lado poeta,jornalista de primeira falar mais alto, seu texto sobre Cleomar, me emocionou,quando a gente lê,parece que está vendo "acontecer",seus textos tem muita VIDA!! Parabéns e siga em frente!!! beijos de quem te ama muitoo e te admira mais e mais
ResponderExcluirCara Patrícia, li o texto e rememorei junto com você muitas vivências junto ao inesquecível Cleomar Brandi. Foram tantas às vezes em que trabalhei com Cleomar e tantas passagens de aprendizado e histórias divertidas, que resumo toda a experiência junto a ele em uma só frase: valeu apena conhecer Cleomar e poder fazer parte de sua história. Assim como você e muitos outros jornalistas que receberam grandes lições de profissionalismo e de ética. De amizade e amor pelo jornalismo. Grande abraço, Sueli Carvalho
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