CENÁRIO


A POESIA PREVALECE


Quando a trupe O Teatro Mágico entra em cena, declama o seu grito de guerra, ou melhor, de paz: “A poesia prevalece!”.  Mas será que ainda há lugar para a poesia, em um mundo tão conturbado? Para a nossa salvação, os poetas afirmam que sim, ela prevalece. Talvez não o suficiente para sustentar os poetas, mas para continuar a alimentar a alma humana. Para Assuero Cardoso Barbosa, poeta, o homem sente a necessidade de poesia. “O poeta sente a dor do mundo” e a transforma, através da sua arte. Por isso, “enquanto houver sensibilidade, existirá poesia”, afirma

Com 5 livros publicados e bem vendidos em Lagarto, Sergipe, onde mora, ele se define como “um santo de casa que faz milagres”. E realmente não tem do que se queixar. Além de vender bem, a sua obra é fonte de inspiração para outras formas de arte. A Cerca de Vidro, último trabalho, transformou-se em recital pela Cia. de Teatro Cobras e Lagartos, em 2009, e Nu e Noturno, primeiro de sua carreira, inspirou o Imbuaça, teatro de rua dos mais expressivos do país, a montar o espetáculo com o mesmo nome, em 1999.  


A crença na arte, como elemento transformador do mundo, tem ajudado Assuero a espalhar a sua poesia, mas ela somente não o sustenta. “Todos os meus livros são bem recebidos, graças a Deus, mas se vivesse só da poesia, morreria de fome. Digamos que ela seja o meu alimento espiritual”, completa o poeta, também ator e professor de Português, Redação e Literatura da rede pública de ensino.

Marta Sodré
Marta Sodré, poetisa carioca, também exerce outras atividades para sobreviver. Como ela mesma diz, “não conheço hoje algum poeta, puramente poeta, como nos bons tempos do romantismo, ou até mesmo os do início do modernismo, que viva só de poesia. Acho que hoje todos nós somos um pouco multifaces”. Formada em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Marta já deu aulas de alemão, foi revisora de textos e “está” servidora pública do Ministério Público Federal, “com todo respeito”. 

Enquanto trabalha, ela segue escrevendo, além da poesia, crônicas e histórias infantis. Para Marta, “seria a glória se as pessoas consumissem poesia, no sentido visceral, engolissem mesmo, como fazem os europeus, e, pasmem, até os americanos”. Contudo, a nossa realidade é outra.  Como diz, “talvez a literatura brasileira não seja tão ingrata para os romancistas, roteiristas, enfim, algo mais palatável que a poesia”. Quem sabe um dia? 

Pesquisa realizada pelo IBOPE, em 2009, entre os leitores brasileiros, aponta a poesia como o quinto gênero literário mais lido no país, uma média de 28% do consumo. Poderia ser pior. A Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas divulgará, ainda este ano, os dados do Censo do Livro 2010, pesquisa realizada com os editores brasileiros, com a colaboração da Câmara Nacional do Livro e do Sindicato Nacional dos Editores. Independente do resultado sobre os nossos hábitos de leitura, a autora de Surtos Poéticos, editado em 2004, continuará apostando no “poder da palavra, sempre”. Para ela, “a literatura é avassaladora e transforma a alma”, seja em que gênero for.

Angelo Romero
Angelo Romero, escritor carioca, também acredita, tanto na poesia, como em qualquer manifestação artística de qualidade, para aplacar a dor do ser humano: “A poesia, a boa arte, assim como o amor, atua como bálsamo à violência do mundo”. E para continuar disseminando a sua arte, Angelo investe em vários estilos literários. “O poeta é, antes de tudo, um escritor que, para sobreviver, terá que fazer uso de sua capacidade criativa para os demais gêneros literários”, afirma. Talvez, por isso, tenha se tornado uma máquina literária versátil. Já publicou 27 peças, 6 romances, sendo o último Arquiteto do Paraíso; 3 livros de poesias, entre eles Desencontro Pontual; 1 infanto-juvenil, A Pedra Encantada, e 1 curso de teatro, Teatro em Gotas. Um dos obstáculos, segundo Angelo, para o acesso à poesia é a mídia, que não a divulga. “Para os veículos de comunicação, o Brasil só produziu um poeta, Carlos Drummond de Andrade. Até Castro Alves, talvez o maior de todos, anda esquecido pela mídia, que só explora o sucesso consumado, raramente o produz”, diz. 

Vivendo hoje em Petrópolis, onde foi buscar qualidade de vida, Angelo alegra-se com o reconhecimento do seu trabalho. Membro da Academia Brasileira de Poesia e da Academia Petropolitana de Letras, Angelo recebeu, em 2010, o Prêmio Reynaldo Chaves pelo conjunto da obra de dramaturgia. Sim, ele também escreve peças, as encena e leciona teatro, uma de suas maiores paixões, no Centro Cultural Abelardo Romero. “Cresci ouvindo Abelardo Romero, meu pai, recitar para mim. Como eu confiava nele e o admirava, entendi que escrever poemas deveria ser uma boa para mim, e pelo que já conquistei, vejo que não me enganei”. 

O Teatro Mágico, lá do início da reportagem, também não se enganou. Visando democratizar a arte, torná-la mais acessível, o grupo de Osasco, São Paulo, achou o caminho das pedras ao disponibilizar o downloand gratuito de seus CDs, através da Internet. Hoje, a trupe comemora a marca de mais de um milhão de cópias baixadas. As músicas saem de graça para os fãs, mais a banda recebe dinheiro por cada acesso, através da empresa que administra o site. Lucram eles, lucramos nós. Só nos resta torcer para que a profecia do saudoso poeta curitibano Paulo Leminski se torne realidade: “Vai vir o dia/ quando tudo que se diga/ seja poesia”.




Comentários

  1. Parabéns pelo blog. Adorei.
    Continua a Patricia de sempre: Viva, cheia de luz e vontade.

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