A mulher é a culpada. Até quando?

Daniel Alves é inocentado da acusação de estupro na Espanha. No Brasil, um homem joga o Matheus, seu filho de 5 anos, de uma ponte no interior do Rio Grande do Sul. Após o crime, o pai liga para a ex-esposa e diz: "Acabei de fazer uma loucurinha. Joguei o Mateuzinho lá da ponte agora. Convive aí com essa dor pelo resto da vida".

O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo. A mulher está na mira, ela é o alvo, é o centro da vingança, do ódio, do desrespeito, da não aceitação da sua simples vontade. Como um ser inferior poderia ter direito a escolhas, não é verdade? A sentença que absolveu Alves nos diz isso, o que pensa a sociedade, e o que ainda representamos para ela.

Por muito tempo, e ainda hoje, a mulher se cala por medo de ser abandonada, de morrer, porque sempre foi alvo fácil. A luta de Maria da Penha para comprovar a violência doméstica sofrida foi árdua, e mesmo assim, ainda nos dias de hoje, após promulgação de uma lei, ainda tentam contestar as suas versões para duas tentativas de assassinato. 

Podemos considerar que tem pouco tempo que a mulher resolveu, ainda que a passos de tartaruga, abrir a boca, resistir, denunciar, trabalhar, se bancar, se valorizar, reconhecer o seu valor enquanto ser humano, se organizar e perceber que a vida não acaba porque ela está sozinha, sem pai, sem irmãos ou sem marido para protege-la, porque a sociedade a ensinou que eram eles, os homens, que tinham esse dever.

Com a absolvição de Alves, perco a esperança de que a mulher tenha o protagonismo que merece nesse mundo de homens, feito para homens, comandado por homens. Um mundo onde até nós, mulheres julgamos o comportamento de outras mulheres após sofrerem algum ataque masculino; "a menina irritou ele", "ela falou de sua honra", "ela traiu, né?", "ah! ela o chamou de incel", "ah! eles não aguentam rejeição" ou, o pior... "ah! a mãe não educou", "a mãe é ausente", "a mãe tem depressão", "a culpa é da mãe"! Tadinhos deles! Poupem-me.

Somos habituadas a manuais de como devemos nos comportar, como mocinhas, desde cedo; acostumadas a rejeição, ao abandono, à falta de colaboração com as nossas atividades do dia-dia, muitas criam seus filhos sozinhas. Somos habituadas a silêncios a dois, a aceitação daquilo que não concordamos, ou não queremos concordar para o bem da família, do relacionamento, e nem por isso saímos por aí fazendo "loucurinhas". O homem mata. As estatísticas estão aí para comprovar.

Muitas vezes nos calamos porque sim, temos medo de enfrentar a vida sozinhas. Sabemos que a sociedade está lá fora, nos esperando para cobrar a conta, quando não nos desmoraliza, nos julga e nos pisa ante qualquer "deslize". Portanto, vivemos num eterno banco dos réus, sem chances de absolvição. Se o Daniel está solto, de quem foi a culpa? Da vítima. "Ela mentiu, provocou, quer indenização, é piranha, estava usando uma roupa de quem quer dar". Não é isso que falam? 

E a mãe do Rio Grande do Sul? Ah! certamente ela é culpada do filho ter morrido, "ela deixou a casa", "deixou seu marido", "desistiu da família", "já está até com outro homem". Não é assim? Portanto, sempre estamos no banco dos réus, ou mortas, ou mortas-vivas, como será o caso da mãe do Matheus, daqui para a frente. 

Os dados de feminicídio no Brasil seguem alarmantes, em casa, nas escolas, no trabalho, e a cada dia o requinte de crueldade com que se mata aumenta. E como o mundo nos responde? Com a absolvição. Mas o que se poderia esperar? "O Conto de Aia" já está saindo das páginas de Margaret Atwood e ganhando força pelo mundo.

Os homens têm a força física e seria orgânico e natural que eles nos protegessem. Mas desde a antiguidade, quando combateram os cultos às deusas pagãs, ou mais tarde, quando, por medo, queimaram as mulheres sábias, e hoje até, a cada dia, quando destroem sem dó nem piedade a nossa mãe Terra, os machos nos dão o recado: queremos ser Deus.





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