POR AÍ


OLHOS PUXADOS E MUITA VISÃO




Sainha plissada, estilo college, t-shirts e tênis ou sapatos Oxford. O look tendência da moda outono-inverno saiu direto dos "doramas" da Coréia do Sul. Com a participação dos Tigres Asiáticos no mercado econômico mundial, uma grande janela se abriu no Ocidente, nos descortinando uma cultura até então pouco conhecida, através da música, da teledramaturgia e da comercialização de seus produtos. A globalização e a abertura de mercado já tinha nos aproximado do Oriente, mas na atualidade, o dono da bola é a Coréia, com sua cultura diferente das velhas conhecidas japonesa e chinesa, sob alguns aspectos, como, por exemplo, a preocupação demasiada com a estética e a beleza. Enquanto Japão e China passam a ideia de culto à espiritualidade e religiosidade, o sul-coreano quer mesmo é achar o elixir da juventude. 

Quem tem adolescentes em casa sabe mensurar o efeito que esse povo alegre, de olhinhos puxados, causa na turma. Os grupos de K-Pop, na música, os K-dramas, ou "doramas", na dramaturgia, a rotina coreana, como ritual de beleza, e o comfly-style, estilo confortável de roupas, tipo superposições, calças de moletom ou pantacourt e t-shirt dress fazem a cabeça da garotada e acabam de entrar de vez no guarda-roupa dos adultos brasileiros. Conforto e juventude. Como pode melhorar? Indo conhecer de perto o bairro mais coreano fora da Coréia, o Bom Retiro, em São Paulo. 


Comecei o percurso pelo supermercado, afinal, se quer conhecer um povo, esteja lá. Mas antes de chegar ao número 261 da rua Três Rios, atravessei os jardins da Oficina Cultural Oswald de Andrade, onde um simpático senhor oriental, aparentando aproximadamente 80 anos, tomava seu banho de sol, sentado a uma cadeira de rodas automática. Puxei conversa com o sorridente senhor, mas logo percebi que ele não falava a minha língua, pois a todas as perguntas respondia: "96". Presumi que seria a sua idade e que se orgulhava muito dela. De fato, ele parecia vigoroso e disposto à felicidade. Cruzei a rua, andei mais 2 quarteirões e cheguei ao supermercado.


O Otugui tem tudo que um coreano precisa para sobreviver fora de casa. Chás, cereais, massas congeladas e frescas, tipo o gyoza, pastelzinho já conhecido nos nossos restaurantes orientais, que por lá tem em 3 versões a sua escolha: pronto para comer, pré-cozido, para fazer em casa, ou congelado para se guardar por mais tempo. Os laméns, de todos os sabores e os vinhos de arroz, de várias marcas, também são destaque do local. Produtos inusitados como o chiclete de café ou o refrigerante de maçã e coco não dá para não provar. Mas a estrela principal do supermercado é mesmo a vitamina C do coreano, que fica bem arrumada no vão central da loja em compotas de vidro de diversos fabricantes: a laranja com mel. Pequena quantidade desse composto em um copo de água quente e voilá ... sua vitamina C está pronta. A indicação é pelo menos uma caneca de chá diariamente. 


Próxima parada: Queen Estética. Atendida por Cristina Choi, proprietária da clínica, fui logo querendo desvendar os segredos da rotina coreana, no que ela respondeu: "Rotina? Isso é obrigação, como escovar os dentes". Em outras palavras, quis me dizer que higienizar, tonificar e hidratar a pele diariamente é o mínimo que uma mulher pode fazer por si mesma. Na conversa, me aconselhou a estimular a minha filha, adolescente, a adotar esse procedimento diário, pois no futuro irá fazer diferença. "Quando estiver com 40, a sua filha vai aparentar 30, enquanto as outras que não fazem nada terão pele de 40 ou mais, a depender do fator genético". No centro de estética, além de limpeza profunda, tratamentos faciais, corporais e massagens, alguns produtos coreanos são comercializados e os séruns são as gotas milagrosas que ela oferece com zelo e credibilidade, pois ao revelar a sua idade, você realmente comprova a eficácia do produto. 


Encantada, e com a pele limpa e renovada, fui com meu amigo Vagner Gonçalves conhecer a culinária local. O bairro tem diversas opções para degustar a comida coreana, inclusive uma loja da cadeia BBOPQ, fast food mundialmente conhecida. Mas nós fomos mais tradicionais e escolhemos o pequeno restaurante Seok Joung, onde a simpática proprietária vai de mesa em mesa saber se estamos satisfeitos com o pedido. Um lugar simples, com cheiro de casa da mama. Na dúvida, pedimos um churrasco coreano e um risoto com legumes e ovo. Querem saber se gostamos? Muito cedo para falar. De sabor exótico e apimentado, inclusive os acompanhamentos, a comida está bem distante do nosso hábito diário. Portanto, não posso dizer que amei, mas posso me dar o luxo de provar de novo e, quem sabe, me apaixonar, como aconteceu com o sushi e o sashimi. 


No mais, saímos bem cheios, pois a comida coreana alimenta de fato. Ainda demos espaço para um docinho na Casa Búlgara, única traição que fizemos à Coreia. Pulada de cerca à parte, a visita ao Bom Retiro foi rápida, mas suficiente para observar a cultura de um povo resistente, disciplinado, bom para o comércio, pois estão sempre sorridentes, fazem qualquer negócio para agradar o cliente e a maquineta de cartão de crédito está sempre a mão, ou seja, olhos puxados, mas muita visão. 


















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