A ÚLTIMA DÉCADA DA MÁQUINA DE COSTURA


Quase 11h levantei de ressaca, antes fosse de álcool - era mesmo de mesmice - e fui direto lavar os pratos, coisa que nunca faço. Hoje é domingo e tudo aqui está sossegado. 

A janela acima da pia dá para o quintal, a alma da casa. Se fechar os olhos vejo gente se movimentando pra lá e pra cá, numa dança das cadeiras interminável. Se mantiver os olhos fechados por mais dois segundos escuto latidos variados, uma sinfonia canina com direito a contralto, barítono e soprano. O som dos talheres nos pratos e os tins-tins surdos dos copos de vidro também é marcante. Taça de cristal por aqui é coisa recente. A louça da minha memória é aquela própria das churrascadas de domingo, que na verdade eu tanto evitava. De lá pra cá muita coisa mudou. 

Selminha tentou a sorte em São Paulo, mas voltou. Narcisa (quem diria!) morreu. Segunda chegou de Recife, terça à noite me ligou de Lagarto e na quinta cedinho foi ver Deus. Depois foi minha mãe, que resolveu dar adeus. Amélia andava cansada, mesmo com todo o carinho da família e o cuidado profissional de Izandra, que ilumiva o seu mundo, quando entrava vestindo o inconfundível jaleco branco. Hoje Izandra é mamãe de Rafael e continua com o mesmo sorriso largo e cheio de amorosidade, reabilitando corpos e esperanças. Zefinha se foi e nunca mais voltou. É certo que tentou voltar, mas as pequenas tentativas lhe mostraram que tudo ali havia mudado. Então, para mudar de verdade, e não ficar pedra sobre pedra, chegou Howl, boxer malhado, atleta e um bocado malvado. Mordeu todo mundo, fez um verdadeiro escarceu e, quando estávamos completamente apaixonados, resolveu zoar no céu. 

Lisete, a dona da máquina de costura, avó da minha filha (quem diria!) também morreu, de repente, como ela dizia que gostaria que fosse, "sem vegetar". Bom é saber como ela viveu bem os seus últimos anos, do alto das suas lindas sandálias, deslizando nos salões. A vida é mesmo um baile e Lisete soube aproveitar. Frida também já se foi, depois de 13 anos de amizade. Nossa, não gosto de falar de saudade, mas a ausência de Frida ainda é uma ferida à prova de mertiolate. Um cão daquele tamanho, com aquela qualidade de caráter, brincando, te amando, te guardando, animando a sua casa, quando falta faz estrago. Chorei eu, Giovanna chorou, Aline chorou. E por falar em Aline, ela se formou, comprou casa, mas, por teimosia, ainda não se casou. Oh Aline danada!

Cá estamos eu, tentando lavar os pratos, Giovanna e Luna, que veio provisoriamente e ficou até hoje, dormindo gostosamente. A dona original de Luna, Juliana, esses dias veio se despedir, mudou de vida e de país. Como presente para Giovanna trouxe a máquina de costura de Lisete. Até ela, a máquina, mudou de vida durante a última década. Passou por Lisete, que a emprestou a Narcisa, que a devolveu a Juliana e que agora já tem nova dona, a futura estilista Giovanna. Ei....quando foi mesmo que ouvi alguém dizer que estava de ressaca da mesmice? Pensando bem, o que não mudou mesmo foi a preguiça de lavar pratos.

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