COMPORTAMENTO
MANDA AÍ, VAI!
Nus. Assim
chegamos ao mundo, à vontade como banhistas numa praia de nudismo. Então,
porque imagens fragmentadas de corpos nus, enviadas através de aplicativos de celular,
provoca tanto alvoroço entre as pessoas? A resposta é que nudes trazem consigo a conotação sexual, que altera a visão de
nudez como algo permitido e natural. Quando a sexualidade entra em jogo, o nu
vira mistério e o nude vira sucesso.
E como dizia Nelson Rodrigues, autor da peça “Toda nudez será castigada”,
quanto maior for o pudor, mais exacerbadas serão as práticas sexuais. Portanto,
se você nunca recebeu uma mensagem do tipo “manda aí, vai!”, prepare-se... O
pedido pode ser tentador.
Trazemos consigo
um código moral inflexível, o mesmo que expulsou Adão e Eva do paraíso, antes
pelados e felizes, por tomarem consciência dos seus corpos e do prazer que
esses podiam lhes proporcionar. Na Bíblia, o primeiro casal da Terra “vestiu as suas vergonhas”, e a partir
daí a nudez foi considerada obscena. Hoje se vive a era da imagem, do
exibicionismo pessoal, não só incentivado, como valorizado, o que, em tese,
cessaria a curiosidade em torno dos nudes.
Já não estaríamos acostumados a tanta exibição?
Não. Quando o assunto é a sexualidade, somos inesgotáveis, um campo
minado de surpresas, e não há como conter fenômenos comportamentais tais como o
nude.
A sexualidade,
seja ela bem vivenciada, reprimida ou ainda inexplorada, somada à profunda
necessidade de aprovação, acrescentando-se aí sedução, erotismo, beleza,
dominação, tornam o nude uma receita
mágica, muito presente nas caixas de mensagens de solteiros, casados, menores
de idade e até crianças, o que tem causado muita confusão, ocorrências
policiais, brigas conjugais ou até tragédias, como alguns casos de suicídio na
adolescência, principalmente.
Para saber mais
sobre esse complexo assunto, tive que conversar sobre nude, pois estudar não seria suficiente. Excluí da pesquisa
comportamentos doentios, derivados do exibicionismo exacerbado, para Freud um
desvio de conduta, patologias relacionadas ao sexo, como a pedofilia, e a troca
de imagens entre crianças, uma triste realidade da qual não me sinto capaz de
discorrer. Limitei-me aos adultos, 12 pessoas, entre 22 a 53 anos, homens,
mulheres, heterossexuais, homossexuais, casados, solteiros (aqui chamados por
nomes fictícios), e, destas, apenas uma mulher, casada, nunca mandou ou recebeu
nudes, o que me leva a crer que a
prática é queridinha nas relações afetivas atuais.
Entre os homens
fica evidente a tranquilidade com que falam sobre o assunto. Roberto, 47,
heterossexual, diz que o nude deveria
ser encarado como uma “atitude normal,
pois o corpo humano não é algo sobrenatural, nem extraterrestre”. Roberto,
que é solteiro, recebe e manda imagens de pessoas com as quais tem certa
cumplicidade. Segundo ele, o nude
também deveria ser utilizado entre casais convencionais, no casamento, pois
aquece a relação. “Certa exibição do
corpo é sinal de saúde, juventude e beleza. Na antiga Grécia era muito comum.
Veja as estátuas gregas! Que mal há nisso?”, questiona ele.
Realmente, em
algumas regiões da Grécia Antiga, como Esparta, a nudez era possível. Soldados
espartanos combatiam nus e nos Jogos Olímpicos a competição se dava entre
atletas nus, fiscalizados por juízes igualmente pelados, desde que não houvesse
a presença de mulheres, o que se concluí que os gregos também não eram tão
liberais assim. Fora do mundo exclusivamente masculino, a exposição do nu era
vergonhosa, imprópria para mulheres. Não é à toa que a mulher sente medo de ver
a sua nudez publicada na rede. É o que revela Sandra, 44 anos, casada: “Acho nude perigoso por causa de hackers que
podem invadir o dispositivo e divulgar a imagem. Nunca recebi, nem mandei, mas
só por medo de vazar na rede”.
Segundo ela, a
troca de imagens íntimas deve fazer parte de uma relação onde há confiança,
para “apimentar a relação, conquistar o
parceiro”. Embora tenha evitado o nude,
Sandra não descarta a possibilidade de um dia fazê-lo, pois seria algo
praticado para pessoa muito íntima, como seu parceiro. “Nunca enviei nude, mas se enviasse, e a imagem fosse viralizada, quem
me conhece saberia que era para ser íntimo; se vazou, não foi porque eu quis.
Quem não me conhece não me interessa”.
CONSENTIMENTO
Para Sandra, a
intimidade e o consentimento são fundamentais na troca de nudes. “Se recebesse de
alguém sem a minha permissão ficaria constrangida, seria um assédio. Eu não
gostaria”. Esse entendimento parece ser regra entre as mulheres, pois todas
afirmam que o nude deve ser
consentido previamente, o que o difere da prática de voyeurismo, caracterizado
pela observação da nudez sem o consentimento da pessoa. Para elas, nude sem consentimento soa como uma
violência de gênero.
Melissa,
solteira, 28, hetero, diz que “para
acontecer o nude é necessário intimidade entre os envolvidos. Não acho o tipo de coisa que role de
primeira, não”. Segundo ela, os nudes
que recebeu são de relacionamentos com tempo considerável e “a troca de imagens é um coringa para o
casal, não dá para usar toda hora, perde a graça!”. O consentimento parece
ser fundamental para as mulheres. Melissa afirma que se recebesse nude de alguém, que se relaciona há
pouco tempo, não seria confortável. “Acho
constrangedor se for mandado sem aviso, quando se trata de uma
"ficada" qualquer, não acho legal; mas se um namorado ou um paquera
de muito tempo mandar, eu vou gostar. A banalização é que tira o charme”,
completa.
Explorar seu
charme é a praia de Bárbara, 36 anos, casada, heterossexual. Segundo ela, toda
relação monogâmica se desgasta com o tempo e se não houver recursos, como os
nudes, por exemplo. “Gosto demais de
receber, peço para mandar e avalio minuciosamente, numa boa (risos)”. Os
motivos que a levam a posar e a teclar um “manda
aí, vai!” variam com as fantasias que todos temos em relação ao sexo,
admitamos ou não, mas a necessidade de se exibir para conquistar o parceiro,
jogar charme, como dizem, está sempre presente. E porque não? “Sinto-me instigada, porque cultiva a minha
sexualidade e aduba a minha relação para que ela não esfrie”, diz sorrindo.
SEMPRE EXISTIU
Portanto, o nude nada mais é do que um velho recurso
de conquista, que só mudou de endereço. Agora é virtual e cômodo, bem próprio
ao tempo em que vivemos. Como diz Melissa, o nude vai além de ser algo para apimentar a relação de um casal. “Acredito que seja um trabalho de autoestima,
de segurança, de valorização. Quando uma mulher manda um nude, por exemplo, ela
se arruma para isso, veste algo diferente, compra algo legal, isso, por si só,
já diverte, já deixa o humor diferente, ativa a feminilidade e quando uma
pessoa se sente bem, não tem como transmitir outra coisa que não seja
pensamento legal, presença legal, momento legal”.
As duas
intenções estão sempre presentes: conquista e exibição. Melissa entrega que as
pessoas “malham mais, se arrumam mais,
comem melhor, pensando num corpo legal para o nude (risos). Acho que tudo isso
só acrescenta; é uma vaidade legal”, finaliza.
PRÉ-SELEÇÃO
A sociedade
favorece a exibição masculina desde a Antiguidade, pois o falo está ligado à
virilidade, muito valorizada na história da humanidade. Portanto, o homem não
carrega o peso do recato, como a mulher, e tem uma maior liberdade para enviar nudes, já que a boa imagem vai lhe
favorecer, inclusive se viralizar. “Quanto
mais gente ver, melhor!”, explica Alberto. O homem, hetero ou homo, só se
preocupa com a identificação quando é comprometido e teme ver sua relação
afetiva prejudicada.
“Desde que começou essa coisa de nude, sempre
pedi e mandei para alguém que eu queria pegar, ou por curiosidade”, afirma
Alberto. No entanto, quando quer algo sério com a pessoa, Alberto não se
utiliza do nude, pois acha que perde a credibilidade perante o parceiro. “O nude só instiga na conquista, na ora de
pegar, se quiser algo sério não mando”, conclui.
AFASTA E
APROXIMA
Ao contrário de
Alberto, Pedro, 23, solteiro, também homossexual, só se utiliza do nude quando a relação já está
estabelecida. Ele crê que no processo de conhecimento, o recurso pode atrair,
mas também afastar, criando falsas crenças. “As fotos podem antecipar bons acontecimentos, como também impedir algo
legal de acontecer, já que material desse tipo pode criar falsos estigmas sobre
o outro, passando até a sensação de receio do encontro”. Às vezes, o que é
para unir pode afastar.
Segundo Pedro,
é inegável que o nude favorece as
relações extraconjugais, “por ser um
material de fácil acesso e que omite uma suposta traição, quando pretendida”, afinal,
o encontro ainda não aconteceu, mas se for concretizado, a simples descoberta
de um nude num celular não servirá de prova, pode se tratar apenas de um nude recebido. Quem não acreditaria? E
quem teria coragem de romper somente por causa de um nude? Nesse vai e vem muita história se desfez, e outras tantas
foram surgindo, sem que ninguém afirme se o nude
é culpado ou inocente. Ou seja, o réu perfeito.
E como não
poderia deixar de ser, entre os amantes o nude
também bomba. Para Pedro, o envio de uma cena íntima aproxima parceiros cujo
contato físico muitas vezes não é possível de imediato, como ocorre com as
pessoas casadas, ou com aquelas que não pretendem se encontrar pessoalmente,
pois moram em cidades distintas, e curtem o sexo virtual. Verônica, 33, utiliza
o recurso semanalmente, para manter acesa a chama da sua relação extraconjugal.
“Mando nude quando percebo que preciso
marcar presença, dá aquela aquecida, para não deixar esfriar, cair no
esquecimento”. E os resultados, segundo ela, são sempre satisfatórios.
Entre um papo e
outro, percebi que o nude é uma
ferramenta poderosa para aflorar a sexualidade das pessoas, muitas vezes
adormecida ou desbotada pelo cotidiano. Num mundo onde a falta de diálogo, o
isolamento e a necessidade de aprovação da imagem pessoal crescem na proporção
que se ampliam os meios de comunicação, chega o nude para fazer as pessoas se sentirem importantes, desejadas,
podendo também escolher a quem desejar. É muito poder!
No nude não há toques, mas há imagens, as
melhores, mensagens, as mais quentes, que devolvem cor às relações, nem que
seja só na imaginação, possibilitando a pessoa ser quem ela quiser; e isso, por
si só, já excita. Você está sozinho(a) com a sua câmera, longe dos olhos do
parceiro(a) e das possíveis rejeições. Afinal, o que todos querem é aprovação e
prazer, e esse papel o nude cumpre,
pois a sexualidade está muito mais na cabeça, do que em qualquer outro lugar do
corpo.





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