CENÁRIO
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| Etelvino Dantas |
NUNCA TE VI, SEMPRE TE AMEI
Somos leoninos, gostamos de literatura clássica e de adivinhar o que vai acontecer com os outros. Ele era músico, dramaturgo, ator, poeta, cronista e telegrafista. Eu, servidora pública, formada em jornalismo, metida a bailarina e amante de toda arte. Ele está morto, eu viva, embora desconfie que ele pode estar mais vivo do que eu. Ele não gostava de gente inconveniente, nem eu. Era impiedoso com ignorância e desmanchava o namoro alheio. Eu não chego a tanto, embora já tenha cometido minhas maldades. Mas sinto uma afinidade incrível com essa alma, embora com ele nunca tenha estado. É por isso que repito: nunca te vi, sempre te amei.
Esse era ETELVINO DANTAS, nascido em Riachão do Dantas em 03/08/1884 e falecido no Rio de Janeiro, em 14/07/1948, aos 63 anos de idade. Marido de Maria Romero, conhecida como "Santinha", e pai do escritor Abelardo Romero, a quem transmitiu o gosto pela leitura, de Victor Hugo a Dante Alighieri. Quando nasci, ele já tinha partido, inclusive já teria adivinhado a sua passagem, num daqueles avisos que nunca deram errado. Conta-se que jantava, calmamente, em sua casa na rua general Belengardi, no Lins, Rio de Janeiro, e perguntou a Joaquim Dantas, sobrinho a quem dava acolhida para trabalhar na grande cidade (como fez com vários parentes e amigos nordestinos que foram tentar a sorte no Rio): "Joaquim, que dia é hoje?". Diante da resposta do sobrinho ele disse: "Conte 10 dias. Você perderá um grande amigo". E assim Etelvino anunciara a sua própria morte.
Nunca me contaram com quem ele aprendera o ofício de adivinho, se veio de família de ciganos (pois lia mãos divinamente), não se sabe, mas aprendi a amá-lo através das histórias que ouvi, trazendo marcas indeléveis de uma personalidade única. Da Dra. Rosalgina Libório ouvi que, quando ele recebia as encomendas trazidas de Lagarto, no Rio, exibia-as todas numa bonita cristaleira localizada na sala e fechava o móvel a chave, para que todos as vissem, mas não pudessem comê-las. Muito malvado! O meu malvado favorito.
De Dra. Rosalgina Libório ouvi também que Etelvino fora escolhido para ser o padrinho de Hernani Libório, e para isso veio de Simão Dias com a esposa, montados a cavalo. Ao chegar em Lagarto deparou-se com a novidade de que Hernani seria José, no que ele reagiu imediatamente: "Santinha, vamos embora. Eu não vim de tão longe para batizar um José. Ou será Hernani, ou não tem batismo". E assim foi.
Essa histórias são apenas aperitivos, segundo Dra. Rosalgina, que as ouvia do marido Hernani, também morador da casa da rua general Belengardi, quando fora estudar Direito, no Rio. Ela tem muito mais informações. Por ora, sabemos também que o senhor Etelvino adotava vários pseudônimos para publicar suas crônicas na imprensa sergipana, e escapar das perseguições. Ao mesmo tempo ele era Zé Patusco, Cabo da Guarda, Chico do Norte, Patusco Sobrinho e E. Dantas, todos irreverentes.
Etelvino Dantas, também músico da Banda Filarmônica de Lagarto, foi imortalizado, dando o nome a uma ruazinha de Lagarto, por ter composto a letra do Hino de Nossa Senhora da Piedade, musicada pelo seu grande amigo e parceiro João Ferreira, avô do jornalista Euler Ferreira. Um belo hino, aliás, cantado na igreja da Matriz, que começa assim:
Somos leoninos, gostamos de literatura clássica e de adivinhar o que vai acontecer com os outros. Ele era músico, dramaturgo, ator, poeta, cronista e telegrafista. Eu, servidora pública, formada em jornalismo, metida a bailarina e amante de toda arte. Ele está morto, eu viva, embora desconfie que ele pode estar mais vivo do que eu. Ele não gostava de gente inconveniente, nem eu. Era impiedoso com ignorância e desmanchava o namoro alheio. Eu não chego a tanto, embora já tenha cometido minhas maldades. Mas sinto uma afinidade incrível com essa alma, embora com ele nunca tenha estado. É por isso que repito: nunca te vi, sempre te amei.
Esse era ETELVINO DANTAS, nascido em Riachão do Dantas em 03/08/1884 e falecido no Rio de Janeiro, em 14/07/1948, aos 63 anos de idade. Marido de Maria Romero, conhecida como "Santinha", e pai do escritor Abelardo Romero, a quem transmitiu o gosto pela leitura, de Victor Hugo a Dante Alighieri. Quando nasci, ele já tinha partido, inclusive já teria adivinhado a sua passagem, num daqueles avisos que nunca deram errado. Conta-se que jantava, calmamente, em sua casa na rua general Belengardi, no Lins, Rio de Janeiro, e perguntou a Joaquim Dantas, sobrinho a quem dava acolhida para trabalhar na grande cidade (como fez com vários parentes e amigos nordestinos que foram tentar a sorte no Rio): "Joaquim, que dia é hoje?". Diante da resposta do sobrinho ele disse: "Conte 10 dias. Você perderá um grande amigo". E assim Etelvino anunciara a sua própria morte.
Nunca me contaram com quem ele aprendera o ofício de adivinho, se veio de família de ciganos (pois lia mãos divinamente), não se sabe, mas aprendi a amá-lo através das histórias que ouvi, trazendo marcas indeléveis de uma personalidade única. Da Dra. Rosalgina Libório ouvi que, quando ele recebia as encomendas trazidas de Lagarto, no Rio, exibia-as todas numa bonita cristaleira localizada na sala e fechava o móvel a chave, para que todos as vissem, mas não pudessem comê-las. Muito malvado! O meu malvado favorito.
De Dra. Rosalgina Libório ouvi também que Etelvino fora escolhido para ser o padrinho de Hernani Libório, e para isso veio de Simão Dias com a esposa, montados a cavalo. Ao chegar em Lagarto deparou-se com a novidade de que Hernani seria José, no que ele reagiu imediatamente: "Santinha, vamos embora. Eu não vim de tão longe para batizar um José. Ou será Hernani, ou não tem batismo". E assim foi.
Essa histórias são apenas aperitivos, segundo Dra. Rosalgina, que as ouvia do marido Hernani, também morador da casa da rua general Belengardi, quando fora estudar Direito, no Rio. Ela tem muito mais informações. Por ora, sabemos também que o senhor Etelvino adotava vários pseudônimos para publicar suas crônicas na imprensa sergipana, e escapar das perseguições. Ao mesmo tempo ele era Zé Patusco, Cabo da Guarda, Chico do Norte, Patusco Sobrinho e E. Dantas, todos irreverentes.
Etelvino Dantas, também músico da Banda Filarmônica de Lagarto, foi imortalizado, dando o nome a uma ruazinha de Lagarto, por ter composto a letra do Hino de Nossa Senhora da Piedade, musicada pelo seu grande amigo e parceiro João Ferreira, avô do jornalista Euler Ferreira. Um belo hino, aliás, cantado na igreja da Matriz, que começa assim:
Ó Virgem Mãe, ó Mãe da humanidade,
Ó Padroeira desta terra tão querida,
O teu olhar de ternura e castidade,
Nos conforta nos embates desta vida (3x).
Euler Ferreira conta que os nossos avós eram confidentes, além de parceiros musicais, e quando Etelvino ouviu, pela primeira vez, a música que deu vida ao seu hino, chorou como uma criança abraçado ao amigo Ferreira. Não sabemos a data do ocorrido, mas creio que deva coincidir com a perda da pequena Ignez, filha caçula do meu avô, acometida de pneumonia, então com 7 anos.
Ouvi de Abelardo Romero que Etelvino amava a música, tocava com primor 5 instrumentos, dentre eles o saxofone. "Nunca vi ninguém tocar saxofone igual ao meu pai. Era divino", contava Abelardo. A música para o meu avô representava um bálsamo curativo ante as dores da vida.
Dantas também era da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos - ECT, e foi quem instalou o primeiro telégrafo de Lagarto, como fez em várias outras cidades do nordeste, no papel de um "bandeirante da comunicação". Mas não se limitava à repartição pública. Agia, mexia e remexia com as estruturas das sociedades locais e com os corações das moçoilas, ao ensaiar e encenar dramas teatrais nas cidades por onde passava, um cacheiro viajante que vendia arte e em troca roubava corações. Ator, eloquente, inteligente e bom de lábia, deixou muitos pais sem dormir, mas não chegou a engravidar moça nenhuma e as conquistas foram deixadas de lado, temporariamente, quando, ao passar pela rua de Estância, se deparou com dona Santinha debruçada à janela de Rita Romero. Ele parou, fitou-a sem demora e disse: "Vou me casar com você". E assim foi.
Ouvi de Abelardo Romero que Etelvino amava a música, tocava com primor 5 instrumentos, dentre eles o saxofone. "Nunca vi ninguém tocar saxofone igual ao meu pai. Era divino", contava Abelardo. A música para o meu avô representava um bálsamo curativo ante as dores da vida.
Dantas também era da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos - ECT, e foi quem instalou o primeiro telégrafo de Lagarto, como fez em várias outras cidades do nordeste, no papel de um "bandeirante da comunicação". Mas não se limitava à repartição pública. Agia, mexia e remexia com as estruturas das sociedades locais e com os corações das moçoilas, ao ensaiar e encenar dramas teatrais nas cidades por onde passava, um cacheiro viajante que vendia arte e em troca roubava corações. Ator, eloquente, inteligente e bom de lábia, deixou muitos pais sem dormir, mas não chegou a engravidar moça nenhuma e as conquistas foram deixadas de lado, temporariamente, quando, ao passar pela rua de Estância, se deparou com dona Santinha debruçada à janela de Rita Romero. Ele parou, fitou-a sem demora e disse: "Vou me casar com você". E assim foi.
Após o casório, a trabalheira de criar 5 filhos e a tristeza em perder a sua predileta, Etelvino mergulhara na música e no teatro. Daí, outras conquistas surgiram e ele, que nada temia, jogou-se de corpo inteiro à paixão por Maria Soledade Costa, ou Dadinha, jovem atriz simondiense. Esse relacionamento durou até a sua morte e deu vida a Maria Lúcia Costa, outra menina, talvez um presente da vida, compensando-o pela perda da sua caçula.
Poderia falar muito mais do senhor Etelvino. Poderia falar da forma com que ele passava os reveillons e o método adotado para espantar os casais de namorado que se escoravam em seu muro para beijos e abraços mais atrevidos, mas ainda não é hora. Encerro com o relato de Astrea Dantas, minha tia, filha dele, sobre os namoros desfeitos de Hernani. Segundo ela, com a boa intenção de que as mulheres não atrapalhassem os estudos do sobrinho, Etelvino tinha uma tática infalível e para isso não desgrudava de perto do aparelho telefônico. Quando este tocava a procura do gajo, o que sempre ocorria, ele despachava: "Você conhece Hernani de onde?". "Minha filha, a sua mãe sabe que você está atrás de um homem casado? Se respeite, Hernani é casado!". E Hernani, inocente e solteiro, em sala de aula, talvez sonhasse com um encontro que jamais aconteceria. Há males que vem para o bem, não é senhor Etelvino?
Poderia falar muito mais do senhor Etelvino. Poderia falar da forma com que ele passava os reveillons e o método adotado para espantar os casais de namorado que se escoravam em seu muro para beijos e abraços mais atrevidos, mas ainda não é hora. Encerro com o relato de Astrea Dantas, minha tia, filha dele, sobre os namoros desfeitos de Hernani. Segundo ela, com a boa intenção de que as mulheres não atrapalhassem os estudos do sobrinho, Etelvino tinha uma tática infalível e para isso não desgrudava de perto do aparelho telefônico. Quando este tocava a procura do gajo, o que sempre ocorria, ele despachava: "Você conhece Hernani de onde?". "Minha filha, a sua mãe sabe que você está atrás de um homem casado? Se respeite, Hernani é casado!". E Hernani, inocente e solteiro, em sala de aula, talvez sonhasse com um encontro que jamais aconteceria. Há males que vem para o bem, não é senhor Etelvino?



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