CENÁRIO
A PRIMEIRA-DAMA
Toda
mulher merece casar-se, mas não com o príncipe, nem com o sapo, e sim com a consciência;
a sabedoria suprema, e dela fazer-se companheira, até o último instante. Assim
fez Núbia Marques, uma sergipana, nunca adormecida, que soube se deixar seduzir
pela força da consciência e tornou-se a verdadeira primeira-dama do Estado de Sergipe,
o ícone feminino da literatura destas terras, a representante do saber moreno,
aquela que sabia versejar sobre a dor do seu povo, sobre a condição de si
própria, enquanto mulher, no contexto da sua época.
Enquanto
as moçoilas choravam as suas pitangas, solitárias, noites a fora, esperando
se casarem com os figurões da sociedade, para se tornarem as primeiras-damas
convencionais, Núbia, corajosa, já rodava, com muita classe e inteligência, à
baiana do saber, buscando ser a primeira-dama por si mesma, falando alto para
defender as suas ideias. .jpg)
Moça,
mulher, esposa, fêmea parideira, mãe, avó e profissional talentosa, Núbia não
pulou nenhuma etapa, foi inteira, do inicio ao fim, com o seu bom gene da
rebeldia. Dizem que era malcriada, prefiro dizer que era consciente de si, do
seu próprio valor.
Assim, a nossa Simone de Beauvoir dos trópicos, venceu batalhas. Numa delas, uniu-se a Abelardo Romero, meu pai, e levantaram a bandeira pelo ingresso de mulheres na Academia Sergipana de Letras. Talvez por isso tenha sido ele o escolhido para fazer a Saudação à poetisa, quando da sua entrada triunfal ao mundo dos imortais.
Assim, a nossa Simone de Beauvoir dos trópicos, venceu batalhas. Numa delas, uniu-se a Abelardo Romero, meu pai, e levantaram a bandeira pelo ingresso de mulheres na Academia Sergipana de Letras. Talvez por isso tenha sido ele o escolhido para fazer a Saudação à poetisa, quando da sua entrada triunfal ao mundo dos imortais.
Segundo disse-me Luís Antônio Barreto, na nossa última conversa no Instituto Tobias
Barreto, em 2009, a dita boas-vindas do poeta à primeira-dama da literatura sergipana,
em 1978, foi tão ou mais efusiva do que o próprio discurso de posse dele, em
1976. Naquele dia, entre perfumes, coletes e gravatas, ele não parava de
repetir: “Núbia é um grande talento”.
Dela
tenho vaga lembrança, pois as visitas ao Sítio da Catita, em Lagarto, eram esparsas.
O rosto levemente avermelhado, contendo sulcos de versos, falava por si só,
como as mãos, que gesticulavam sem parar. A varanda do nosso sítio ficava
pequena, quase não comportava aquela conversa envolvente entre a poetisa
Marques e o poeta Romero. Lá de dentro eu ouvia gargalhadas. E como sorriam!
Falavam de quê, de quem? Eu, criança curiosa, tentava alcançá-los, mas não
conseguia. Só sei que comungavam da mesma hóstia, a poesia.
Aprendi
a admirá-la por tabela, pelos elogios que o meu pai lhe dirigia, “Amélia, Núbia fez nova poesia”, “Núbia é
muito boa”, “Gosto dos versos de Núbia” e por aí vai. Mas foi num desses dias,
bisbilhotando a Net, que ela me arrebatou por completo, quando li, no blog http://academialiterariadevida.blogspot.com.br, uma de suas últimas poesias, que transcrevo a seguir. Ali, Núbia demonstra a consciência pura ao dizer, em
outras palavras, o quão importante é manter “as mãos limpas e o coração puro”. Não julgar as atitudes
do outro para não carregar fardos que não lhe pertencem, ou melhor
dito, numa frase “marquesiana”, não carregar “o vendaval nos cabelos”. Que visão esplêndida! Leiam o poema abaixo e durmam com o beijo quente da consciência.
Boa noite!
CONCLUSÃO
Não seja eu
CONCLUSÃO
Não seja eu
a
que mutila
ou
abandona
não
seja eu
a
que devora e aniquila
não
seja eu
que
transforma a praça
em
tocaia e luto
não
seja eu
a
tornar o momento breve
em
grave
não
seja eu
a
que carrega o vendaval
nos
cabelos
nem
a que
dorme
todas as noites
no
sangue derramado
do
povo
não
sendo eu
posso
morrer na madrugada
tendo
nos lábios uma rosa
e
nos olhos
a última estrela da noite.
a última estrela da noite.

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