COMPORTAMENTO

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

(ou PASSANDO A LIMPO)

O ano começou bem. As forças armadas dos Estados Unidos autorizaram a participação de mulheres nas linhas de frente dos combates. A população da Índia cansou de fazer vistas grossas ao estupro coletivo e foi às ruas pedir a punição dos criminosos. A união homo-afetiva oficial já é fato no Brasil, inclusive com a possibilidade de adoção. Ainda em 2012, os americanos elegeram, pela segunda vez consecutiva, um negro para presidir o país. Também é afrodescendente o chefe da Corte Suprema brasileira. E o Brasil, após décadas dizendo amém para a corrupção, o nepotismo e outras irregularidades da Administração do país, inicio uma série de manifestações em prol do desenvolvimento nacional. A impressão que se tem é de que o mundo passa a limpo os valores, exatamente como fazemos nos cadernos escolares: copiamos o que nos foi dito, rabiscamos o que não nos serve mais, resgatamos o que já foi vivido e, agora, nos parece bom e criamos novos conceitos a partir das nossas variadas interpretações.

Sem enveredar pelo certo ou errado, melhor ou pior, o homem tenta se equilibrar num mundo globalizado, cujas estruturas familiares mudam significativamente e os avanços tecnológicos (inclua-se aí o acesso à informação) causam transformações no cenário social e profissional. Dentro desse contexto, cada um procura se achar. Mulheres viram chefes, homens se tornam “do lar”. Algumas se casam de véu, outras nem sequer pensam a respeito. Há o namoro a três, com anuência das partes envolvidas, casados em casas separadas e solteirões convictos e felizes, comprovando que não é preciso, necessariamente, dividir o mesmo teto com alguém, dormir na mesma cama, ter um filho para se sentir feliz e parte da humanidade.

Hoje, estamos saindo da fase de “choque de valores” para a de “revisão”. “Talvez”, “pode ser”, “quem sabe”, “porque não”, “vou pensar a respeito” está muito mais em voga do que “isso é um absurdo”, “que horror!” ou “mantenha a distância”. Nunca tivemos tão niilistas, ou seja, relativos. Para Nietzsche, tudo depende das circunstâncias, dos interesses em jogo, do momento histórico. Em suas teses filosóficas, valores absolutos não existem. Pensei nisso ao ouvir a modelo Lea T, após a cirurgia de mudança de sexo, em 27 de janeiro último, quando ela desabafa ao Fantástico (rede Globo): “Um mês deitada naquela cama, pensei: isso tudo é uma grande bobeira. Não sou mais mulher agora do que antes. Eu sou eu”. Gay? Mulher? Homem? Transexual? Não, Lea T.


CABO DE GUERRA

Novos conceitos podem perturbar algumas pessoas? Sim, não há dúvida. Esse movimento relativista pelo qual passa o mundo enfrenta resistência. Os ataques homofóbicos, o estupro, a recusa de alguns patrões em contratar portadores de necessidades especiais (embora haja lei para isso) e uma série de atitudes desrespeitosas a grupos vulneráveis, como a criança negra, destratada dentro de uma concessionária de carros, no Rio de Janeiro, em 12 de janeiro último, continuam a acontecer. Portanto, leis que proíbem atitudes discriminatórias, não garantem, por si só, a aceitação social. Isso demora, é um processo lento. A diferença é que antes o sofrimento não causava reação, virava um nó na garganta, uma noite mal dormida. Hoje, não. Atos discriminatórios são denunciados às autoridades competentes, à imprensa e à comunidade.

Com enfrentamento as coisas mudam. Quando os homossexuais começaram a se manifestar em São Francisco, na Califórnia, o sofrimento era grande, vários ativistas foram assassinados. Mas as dificuldades engrossou-lhes o casco, impulsionou-lhes a seguir em busca de respeito. Geralmente, grandes vitórias são precedidas de várias derrotas. Hoje, países como o Canadá permitem o casamento civil. O Brasil passa na frente da Europa Central, ao permitir, desde 2010, a adoção por pessoas do mesmo sexo, mas há muito o quê se conquistar. O Afeganistão, por exemplo, ainda pune a homossexualidade com a pena de morte. Mesmo assim, já temos provas irrefutáveis de que valeu a pena a reação corajosa dos homossexuais, frente à sociedade americana ultraconservadora, lá na década de 70.

Foram eles, os ativistas californianos, os responsáveis pela aprovação de lei que garante direitos gays na cidade de São Francisco. Os sul-africanos puseram fim ao sistema segregacionista Apartheid, após décadas de sofrimento. As operárias do século XX iniciaram o processo de valorização da mulher no mercado de trabalho. Transformações sociais só ocorrem pela formação de grupos que, historicamente renegados, tornam-se resistentes. É mais ou menos como aquela brincadeira do cabo de guerra, aonde dois grupos puxam a corda em sentidos opostos, e ela sempre arrebenta do lado mais fraco. Quem será o mais frágil? Mulheres, gays, negros já são experientes nesse jogo de forças e têm sido responsáveis por grandes conquistas.

A boa notícia é que o mundo vai continuar, ininterruptamente, o processo de transformação de valores, pois o que é “aceitável” hoje pode ser revisto amanhã. No fundo, no fundo, todos querem o direito de viver como são, sendo, no mínimo, respeitados. Torço para que a revisão de valores consiga iluminar aqueles cantões do mundo, congelados pela intransigência. Quem sabe a Coréia do Norte para de escravizar psicologicamente os seus súditos e o regime Talibã desista de obrigar o uso da burca, já que a regra faz mais parte do extremismo, do que da religião muçulmana.

Outro dia ouvi dizer que a renúncia do Papa era o sinal do “fim dos tempos”. Se a imprensa especulativa estiver certa e o ato de Sua Santidade representa o repúdio à pedofilia e à corrupção dentro da Igreja, coisas que ele não pode enfrentar, em virtude de uma política interna extremamente corporativista, mas pode protestar, através do ato de renúncia, chamando a atenção de toda a sociedade, isso não é o fim, mas o sinal do “início dos tempos”. Um belo início, por sinal.



Texto publicado na edição 23 da revista ÍCONE. Editor: Márcio Lyncoln

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