OPINIÃO
ESTRANHO É GOSTAR TANTO ...
A minha filha pediu um tênis novo. O bom e velho Nike já estava bem apertado. Andamos para trás, compramos um Ortopé ... tão bonitinho. Ela se adaptou muito bem ao novo pisante, e já não lembra mais do antigo companheiro.
Deveria ficar feliz, toda mãe fica ao ver os seus filhos branquinhos, limpinhos e impecáveis, vendendo a boa imagem da saúde e educação. Mas tudo que sei é que gostava tanto de chegar em casa e ver aquele sapato surrado, jogado no banheiro, como se ali fosse a minha própria menina. De certa forma, aquela imagem também era eu. Ia até a minha adolescência num piscar de olhos, quando o meu Bamba de 5ª, sujo, roto e sem cadarços era criticado nos corredores do Colégio Estadual Antonio Prado Junior. Foi a forma que encontrei de dizer: ___ ok, vou usar uniforme, mas o tênis tem que ser o meu, o meu diferencial.
Hoje, o que me preocupa é a formatação, a padronização dos nossos jovens, inclusive de ideias. Poucos se rebelam, poucos se questionam e, decididamente, não quero isso para a minha filha. Por isso a sirene de alerta soou em mim quando a ouvi dizer: "quero um tênis novo, branquinho, de velcro". Aí meu Deus, será que a minha filha está querendo ser igual as coleguinhas? Não quero isso pra ela.
A disciplina é bem vinda, mas ousar é bom, principalmente durante a construção do ser. Experimentar uma facha laranja no cabelo, um tênis sem cadarços ou ousar desfilar o que todos acham ridículo faz parte de um viver saudável, que perpassa no questionamento dos próprios valores, daquilo que realmente importa para si, e não para os outros.
A disciplina é bem vinda, mas ousar é bom, principalmente durante a construção do ser. Experimentar uma facha laranja no cabelo, um tênis sem cadarços ou ousar desfilar o que todos acham ridículo faz parte de um viver saudável, que perpassa no questionamento dos próprios valores, daquilo que realmente importa para si, e não para os outros.
O que quero dizer é o mesmo que o Nando Reis diz em sua canção "Estranho é gostar tanto do seu All Star azul", porque estranho, ou fora de moda, o calçado diz muito do seu dono, e por gostarmos tanto do dono, gostamos do acessório. Um tênis sujo não é exemplo que se dê para um filho, nem a melhor saída para se dizer quem é, mas foi a saída para mim, uma jovem tímida, que mal falava, e usou as armas que tinha, o seu inconfundível Bamba. Por isso gostava tanto dele e, de quebra, gostava tanto do Nike da minha filha, que a representava tão bem, uma menina esperta, às voltas com desenhos e filmagens em stop motion.
Espero que as crianças usem os seus uniformes branquinhos, sem problemas, mas descubram, desde cedo, a melhor forma de se expressar no mundo. Que não precisem usar um tênis sujo, mas se rebelem ante qualquer tentativa de padronização que não lhes pertençam. Na verdade, é o que eu espero de todos os jovens, e fico feliz, muito feliz, quando escuto relatos "diferentes". Não são muitos, mas eles existem e por causa deles vamos sempre cantarolar "estranho é gostar tanto...".

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