COMPORTAMENTO
CONVERSAS PARALELAS
Observe. Neste momento alguém a sua volta deve estar usando um celular. Os aparelhos de 3ª geração (3G), que utilizam sistemas como o Symbian, Windows Mobile, iOS e Android, invadiram a ”nossa praia”, leia-se a “nossa sociedade”. Com a possibilidade de acesso à internet pelo celular, saltamos do uso comedido para a mania. Cenas diárias de interação do homem com o “amigo inseparável” pipocam na capital, causando irritação àqueles que tentam travar um diálogo convencional. São as conversas paralelas, que agora, através dos celulares, se tornam rivais cada vez mais poderosas.
Tereza Cristina Maynard, bióloga, especialista em Saúde Pública, recepciona
bem a tecnologia, mas alerta que ela possibilita novas formas de relacionamentos, ao tempo
em que restringe as formas tradicionais de interação social. Sem falar que “a dependência pelas redes
sociais é hoje uma realidade com impactos impossíveis de ignorar”, diz. Estamos encantados com o “mundo” à mão, tal qual Narciso diante da
própria imagem refletida no lago de Eco, enquanto “outros”, de carne e osso,
solicitam a nossa atenção.
Fernando
Silva, empresário no segmento de tintas e afins, experimentou o gosto amargo de
ficar “só” durante um jantar de confraternização. “A minha empresa levou um
grupo de profissionais para jantar. Findada a refeição, supunha que todos entrariam num animado papo, mas aí o que
acontece? Todos, sem exceção, sacam os seus smartphones, esquecendo-se
completamente de que aquele era um jantar de confraternização. Alguns passaram
mais de 10 min. totalmente antenados com eles próprios. Fiquei chocado com
tanta desatenção para com o próximo”, desabafa.
E você, já experimentou uma situação similar? Alguém já te deixou
“falando sozinho”? Já foi vítima dessas conversas “virtuais” paralelas? Tereza
Cristina também sentiu na pele a sensação de estar sozinha, mesmo que acompanhada.
“Certas ocasiões encontrava-me em
festas, onde quase todas as pessoas da mesa utilizavam o celular. Eu me senti
numa espécie de “estágio de isolamento social”. Estamos numa mesa com amigos e
de repente todos usam o celular! O diálogo entre nós desapareceu? Estamos
conversando virtualmente com os distantes e mudos com os mais próximos? Não
aprecio!”, confessa.
Para
Fernando Silva, não há como negar os benefícios da tecnologia, mas devemos
manter a sensibilidade de utilizá-los nos momentos certos, sem passar por cima
dos valores morais e da educação. Há uma corrente filosófica que diz exatamente
isso: “quanto mais complexa a tecnologia, maior deve ser o braço da ética”. A
filha de Fernando, Rafaella Dantas Silva, administradora de empresas, concorda
com a opinião paterna, mas confessa que usa bastante o celular, como a maioria
das pessoas da sua geração. “Não sou tão educada, às vezes utilizo o
celular, mesmo que haja alguém ao meu lado. Meu namorado sempre reclama, pois
tem aversão ao uso abusivo do aparelho, quando na companhia de pessoas”, declara.
Os “telefones inteligentes” são, de fato,
irresistíveis. Como explica Rafaella, “emails circulam em tempo real,
decisões são tomadas de forma mais prática, numa altíssima velocidade de tempo,
a qualquer distância do mundo e os chats nos dão a possibilidade de encontrar amigos pessoais, ou contatos profissionais
para tratar de assuntos pertinentes”. As mil possibilidades de ação através
do celular dá ao homem a sensação de poder e controle da vida. O ganhador do
prêmio Nobel da Paz, o indiano Muhammad Yunus foi mais longe: “A tecnologia
dá poder as pessoas”. Justamente por isso fascina tanto.
Só para ilustrar o tamanho do poder de um celular, Pollyana Ferrrari, professora
de jornalismo da PUC/SP, reconta em seu livro a “A Força da Mídia Social” a
noite de 13/06/2009 em Teerã, quando um internauta descreve para o mundo pelo
celular, através do Twitter, o início da rebelião batizada de 2.0. Enquanto os
jornais, TVs e rádios sofriam a censura estatal, 45 milhões de celulares
daquele país mostraram ao mundo uma das mais significativas manifestações
políticas do Irã.
Portanto,
é difícil não se sentir o “todo poderoso” com um brinquedinho desses nas mãos. Acesso
à internet por Wi-Fi e banda larga, vídeos conferências em tempo real, chats,
redes sociais, câmeras de até 12 Mpx, jogos em 3D e TV’s com até 5.5'
polegadas, tudo embalado em belos objetos portáteis. Aí estão os valores
básicos da tecnologia: eficiência e economia, aliados à estética. Mas será que
é só isso? Em se tratando de tecnologia, a questão mais polêmica, sobre a qual
se debruça a psicologia e a filosofia, não está relacionada à máquina e o que
ela pode fazer, mas sim com a significação dela para existência humana.
Albert
Borgmann, filósofo alemão contemporâneo, diz que o apelo tecnológico é tão
forte, que a maioria das pessoas é incapaz de recusar. Esse “entorpecimento” do
homem pela máquina torna a vida humana limitada, pois as pessoas deixam de
enxergar outras formas de se viver. Em
sua obra “Tecnologia e do caráter da vida contemporânea: uma interpretação
filosófica”, Borgmann instiga: “Se duas
horas de TV por dia entram em nossas vidas, outra coisa tem que sair. E o que
saiu? Contar histórias, ler, socializar com os amigos ou apenas dar um passeio
para ver o que está acontecendo no bairro”.
Jorge Alvarez, Engenheiro Mecânico e de
Segurança do Trabalho, tem se questionado sobre esse “entorpecimento pela
tecnologia” de que fala Borgmann. “Não existe mais aquela amizade de você
passar na casa do amigo para ver como ele está, basta uma mensagem no facebook
e pronto. Onde fica o verdadeiro significado da amizade, aquele calor humano
que tínhamos antes dessa era das redes sociais, onde as pessoas possuem milhões
de amigos, quando na verdade muitos são totais desconhecidos?”, questiona.
Uma das
cenas hilárias testemunhadas por Jorge aconteceu à noite, num bar da cidade. “Estava
na balada e observei um cara tentando conhecer uma menina. A cada instante ela
interrompia o rapaz para mexer no celular. Lá pelas tantas o cara se irritou,
deixou a menina sozinha e saiu resmungando”. Segundo Jorge, a situação é
preocupante, pois não há como preferir à rede social a uma boa conversa com
amigos, ou até desconhecidos que querem ampliar o rol de amizades reais. “Eu
chamaria isso de uma inclusão no mundo virtual e uma exclusão do mundo real”, finaliza.
E qual a solução para aproveitar o lado bom dos avanços tecnológicos,
sem nos esquecer dos valores antigos? “Acredito que o segredo está
na moderação. Chamo sempre a atenção dos meus filhos
para que não se isolem do convívio social real’”, diz Tereza Cristina Maynard. Os
jovens descobriram uma forma lúdica para se chegar a um meio-termo
e quem nos conta sobre a brincadeira é Rafaella Silva: “A última moda é colocarmos os aparelhos empilhados na mesa do bar. Quem pegar primeiro,
paga a conta toda. Essa é uma maneira de gerar interação pessoal e esquecer-se
um pouco o mundo virtual”, comenta.


.jpg)
.jpg)

MARAVILHOSO, AMEI, SUCESSO!!!
ResponderExcluirQue bom que gostastes.
ExcluirQuerida Paty
ResponderExcluirGostei muito do artigo que você enviou e concordo que o uso dos eletrônicos é muito prejudicial para os relacionamentos que estão próximos a nós. Parabéns pelo artigo.
Pois é amiga. Como é um tema que incomoda muita gente, uma verdadeira pedra no sapato, resolvi pensar sobre e entrevistar, tentar entender. etcccc
ExcluirExcelente, Sister!
ResponderExcluirObrigado, querida Prue.
ExcluirPatrícia, eu já conhecia essa matéria, aliás, muito boa, mas, sinal dos tempos, nada se pode contra a massificação, e estão de volta outra técnica da famosa "cultura' norte-americana: os filmes em 3D.....
ResponderExcluirFanny, a sua opinião é uma honra.
ResponderExcluirMuito boa a matéria, Patrícia
ResponderExcluirObrigado. A intenção é fazer pensar a respeito, apenas.
Excluir
ResponderExcluirEu, pessoalmente, acho uma falta de respeito.
Pois é Alê, eu tb. E foi justamente esse o motivo que me fez fazer essa matéria.
Excluir