COMPORTAMENTO

AS GAROTAS "DA HORA"

Foto de Maurem França
A Barbie, quem diria, encalhou. Isso mesmo. A loira de curvas sinuosas já não desperta mais a atenção das garotinhas e anda boiando nas prateleiras das lojas de brinquedos da cidade. As “garotas da hora” são as alunas da Monster High, por sinal, do mesmo fabricante da Barbie. Será que a american girl enfrenta o fim de um reinado de 5 décadas? Claro que não! Sempre haverá comprador para a “modelo perfeita”. A questão é que esse padrão de beleza começa a dar sinais de cansaço e o mercado, atento às necessidades sociais e à onda pela aceitação da singularidade das pessoas, das diferenças, da “verdade” de cada um, reinventa uma receita de sucesso sob o lema “seja você, seja único, seja Monster”. Pronto, é tudo o que a sociedade quer consumir.

Os alunos monstros chegaram chegando, como uma febre, um vírus avassalador, que o digam os vendedores de brinquedos, material escolar, livros, revistas e o próprio You Tube, com os seus milhares de acessos aos vídeos relacionados à MH. Além das menininhas de 10, mulheres de 20, 30, noivas, casadas, colecionam as bonequinhas. Mas de onde vem o fascínio? As bonecas têm cabeças grandes, desproporcionais ao resto do corpo, panturrilhas gigantes, sem harmonia com as pernas secas, corpo magro, barrigão pontudo e colunas visivelmente defeituosas: lordoses e cifoses não faltam ali. Resumindo: em termos de beleza, uma desgraça.


Com tanto defeito, o que atraí? Exatamente isso, os defeitos. Mesmo muito “estranhos”, os monstrinhos mostram uma verdade, uma autenticidade que parece interessar muito mais hoje em dia. Bonecos diferentes, estranhos, defeituosos estão muito mais próximos da raça humana. O mundo atual, em constante revisão de valores, parece querer mais do que um rostinho bonito. Em outras palavras, ao invés de tentar maquiar, o mundo se move para tirar o verniz que servia para encobrir a falsa perfeição, seja na política, na religião, no trabalho, nos relacionamentos e, porque não, no aspecto físico das pessoas. Talvez daí o sucesso do produto.

Tudo bem que a indústria de brinquedos não criou nada novo. Monster High pegou carona com a saga Crepúsculo, misturou o High School Musical e a Escola de Sustos do Gasparzinho à receita, fez uma releitura dos contos antigos, com seus Dráculas, Corcundas e todo um elenco de esquisitos e fabricou esse sucesso estrondoso. A receita é velha, mas o resultado é novo. De vez em quando o mundo reage à padronização do ser humano, através de movimentos como os punks, darks ou emotions, mas nunca essa galerinha esquisita fez tanto sucesso. Até os óculos dos nerds invadiram os tutoriais de moda. Ou seja, o "esquisitão" ontem rejeitado, hoje pode “causar”.

O apogeu das MH causa alívio em diversas mulheres que nunca vão se encaixar no perfil "Barbie", ou seja, a maioria das brasileiras. Para Vinícius de Morais, beleza era fundamental. Mas de que beleza ele falava? Beleza é questão de perspectiva. Para Manuel Bandeira, bonita era Tereza, com "cara de perna/ olhar mais velho que o resto do corpo". E entre os dois poetas, o segundo combina mais com os dias atuais, por ser, acima de tudo, diferente.

Eu, que tinha como encomenda de Natal a Draculaura, uma menina cor de rosa, com o penteado da Amy Winehouse, penei de tanto perambular pelo comércio, mas consegui uma caixa, das 5 existentes numa prateleira sortida de Barbies a preços promocionais. Paguei mais caro. Com o presente na mão, confesso ter sentido certo alívio ao imaginar garotas mais livres da ditadura da beleza no futuro, afinal sou mulher e mãe. Já que as monstrinhas estão bombando, isso me leva a crer que estamos mais tolerantes com os defeitos alheios (se é que são defeitos) e dispostos a aceitar as diferenças.

PS: Até hoje, 03/02/2013, as lojas de Aracaju não receberam novos exemplares das bonecas Monster High. Esgotados todos os estoques desde o Natal.

Comentários

  1. Acho que tudo isso tão louco, porém tenho a certeza que bom mesmo nunca deixar as crianças se identificarem nem com o feio e nem com o belo e sim se aceitarem como são.

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    1. Concordo com você Lisete. No tempo do espartilho, ficar bonita era muito sofrido, mas ninguém ousava deixar de usar aquilo. Hoje, ficar bonita pode ser mais simples, mais confortável, e principalmente pode ser mais autêntico. Que todas nós, crianças e mulheres, encontrem as nossas formas.

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