COMPORTAMENTO

QUAL É A SUA?

Num dia qualquer você acorda e, enquanto toma banho para retomar a rotina, pensa: qual é o sentido da vida? A partir daí várias coisas podem acontecer: 1ª) você nunca mais pensa a respeito; 2ª) descobre um sentido, baseado nas suas convicções, mas toca a vida, sem alterações, seguindo a ideologia do seu grupo, consciente ou inconscientemente; e a 3ª) e mais difícil, põe em prática a sua visão de mundo, transformando o curso de sua vida, influenciando pessoas e podendo mexer, se for bem convincente, com as estruturas sociais estabelecidas. Mas isso pode ser muito perigoso.


Leo Tolstoy
Leo Tolstoy, uma das maiores celebridades do mundo literário de todos os tempos, assumiu os riscos e escolheu a 3ª opção. Na Rússia czarista, ele rompeu com a Igreja, doou os seus direitos autorais ao povo russo, rejeitou o título de nobreza, era Conde, a propriedade privada e o prestígio social em favor de uma vida simples, rural, vegetariana e celibatária. Assim nasceu o Movimento Tolstoiano, que pregava a resistência pacífica. E o que ele ganhou em troca? Tudo vai depender do ponto de vista de quem responde a pergunta.


Christopher Plumman na pele de Tolstoy, no filme A última estação.
Caso assista ao filme A Última Estação, de Michael Hoffman, e seja simpatizante do neocapitalismo, dirá que o escritor só teve prejuízos: ficou mal com os centros de poder da época: o Czar e a Igreja; transformou um casamento feliz de 48 anos num inferno familiar interminável - já que a esposa, a Condessa Sofya Andreyevna, queria um marido convencional e não abria mão dos direitos sobre as obras dele - e acabou morrendo de pneumonia, numa viagem de trem, em 1910, ao escolher o vagão mais simples para transportá-lo, em condições de higiene duvidosas e pouquíssima ventilação.


Gandhi e a luta pacífica pela independência da Índia.
Mas se for um pacifista, pensará diferente: a luta de Tolstoy não foi vã, pois ele inspirou Gandhi a defender a resistência passiva, no processo que libertou a Índia, e talvez tenha sido, por que não dizer, o primeiro socialista europeu, pois, em meio à realeza, já rejeitava a propriedade privada. Depois de Tolstoy veio o doutrinador Marx e os revolucionários Lênin e Trotsky, que sacudiram os alicerces da política mundial, trazendo novas propostas de vida.


Da esquerda para a direita; Stalin, Lenin e Trotsky.
Se nos basearmos apenas nos fatos, sabemos que Gandhi conseguiu a independência, mas acabou assassinado. Lênin e Trotsky foram traídos por Stálin, que após assumir o poder, tornou-se ditador, desfigurando a ideologia do partido que ajudou a fundar. Lênin morreu de desgosto, Trotsky assassinado. Através da história, pode-se dizer então que se paga muito caro para ultrapassar a barreira do convencional, ou defender uma nova ideia.

Então vale a pena seguir as próprias convicções, arriscando-se? Em contrapartida, agir como ovelha em rebanho não reforça a alienação coletiva? Quem responde é Renata Machado, psicóloga, pós-graduada em Terapia Comportamental Cognitiva (TCC): “A ideologia institucionalizada norteia as pessoas para um determinado tipo de "padrão convencional", direcionando-as à forma de pensar e se comportar, tendo em vista um padrão "ideal" de sociedade. Entretanto, se de um lado a intenção inicial é positiva para alguns, do outro, pessoas são "podadas" em sua liberdade de construir os próprios ideais e, por consequência, comportamentos”, conclui.

Segundo a psicóloga, as famílias devem estar atentas às potencialidades dos seus filhos, propiciando desde cedo um ambiente em que eles tenham liberdade de expressar seus pensamentos e, por consequência, fazer as suas escolhas. “Quantos médicos bem sucedidos e frustrados encontramos por aí? Quantos empresários á beira de um enfarto, com crises de stress, mau humor e doenças vindas de somatizações, mas que não se permitem relaxar, porque têm que trabalhar? E trabalhar mais pra quem, pra quê?”.

Se o motivo ensejador do trabalho excessivo for à aptidão e o prazer, menos mal. Se, contudo, o adulto continua reforçando a falsa crença de que “só será reconhecido se tiver muito dinheiro, e aí que está o verdadeiro valor vida”, as coisas não vão bem. “De acordo com a Psicologia, comportamento saudável é todo aquele que não causa mal estar físico e psicológico para si, nem para outrem. Existem inúmeros casos de pessoas bem sucedidas, que largaram a vida na cidade para morar no interior, ganhando menos, entretanto, com mais qualidade de vida. É claro que são criticadas, mas a vida delas deve fazer sentido para quem? Está existindo algum prejuízo significativo para alguém, ou para a ideologia instalada na nossa sociedade?”, argumenta.

Karunah Guimarães, assistente social e massoterapeuta.
Karuna Guimarães, assistente social, com formação em massoterapia e consciência corporal, nunca seguiu os padrões que a sociedade lhe impôs e confessa ter sido, por diversas vezes, mal interpretada. “Enquanto as pessoas buscavam se encaixar no sistema, preocupando-se com bons salários, bons empregos e cargos, eu me preocupava com a questão da alma, do “quem eu sou”, e utilizei a servidão no processo de autoconhecimento. Passei 10 anos no serviço voluntário para a recuperação de dependentes químicos e cuidando de portadores de HIV. Enquanto servia o outro, descobria quem eu era, o que queria”, conta, com voz pausada e firme.

Aos olhos do mundo”, como diz Karuna, as suas escolhas podem ser estranhas, mas hoje afirma que não há do que se arrepender. “A vida me dá tudo o que eu preciso. Participo do grupo de pesquisas Troca de Saberes, da Universidade Federal de Goiás, conduzo um espaço de massoterapia em Goiânia e convivo com pessoas afins, que cultivam os mesmos valores que eu”. Uma vez por ano, o projeto Troca de Saberes reúne integrantes de todo o país para levar conhecimento às comunidades vulneráveis e conhecer diferentes culturas. Esse ano a parada foi nas comunidades ribeirinhas da Ilha de Marajó, no Pará, e Karuna, que é natural de Sergipe, foi junto. De volta, ela confessa: “A vida me deu a chance de estar aposentada fazendo o que gosto”.

Karunah, fazendo seu próprio caminho.
Caso não precise de ideologias, ao contrário da Karuna e do lendário roqueiro Cazuza que, decepcionado com as velhas ideias, busca boas novas para viver na música Ideologia, certifique-se de não estar seguindo crença alheia, inconsciente, feito uma “maria-vai-com-as-outras” e se quiser divagar lentamente, Renata aconselha: “Não se joga uma ideologia pela janela, mas podemos conhece-la devagar, degrau por degrau, e essa reflexão deve começar dentro de cada um e dentro de cada família. Como disse Steve Jobs: "Cada sonho que você deixa para trás, é um pedaço do seu futuro que deixa de existir", enfatiza.

Portanto, volte àquele banho lá do início, deixei a água escorrer mais um pouco e pense na vida que te faz feliz, independente do que a sociedade espera de você. Enquanto a sua ideologia está no plano das ideias, você não corre perigo e ganha tempo para seguir o conselho da psicóloga, conhecendo passo-a-passo a trajetória para a sua felicidade, a partir da sua visão de mundo. Como diz Renata Machado, “vivemos em sociedade, com deveres e regras a serem cumpridos, entretanto, necessitamos do direito de descobrir o que de fato nos faz "vibrar", nos faz sentir que vale a pena viver”. E então, vale a reflexão?

Comentários

  1. Muito, as vezes para chegarmos a esse entendimento é necessário que passemos por determinada situação, nem sempre enxergamos de forma espotânea.Parabéns Patrícia Dantas !!

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    1. É Leila, a estrada é longa. Temos uma tendência natural a julgar e querer para os outros o que pensamos para nós. Isso me incomoda e a partir dai resolvi perguntar. Deu nisso.

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