CENÁRIO
LONGE É UM LUGAR QUE NÃO EXISTE
Conto uma história de amor e, sobretudo, de respeito, entre um poeta e uma estudante de engenharia civil no desabrochar dos anos dourados. Naquela época, quando os contos de fada deveriam ser perfeitos, uma moça não poderia sequer olhar para um homem casado. Débora (codinome usado pelo poeta) até ousou, mas resistiu. No poema Débora, publicado em 1949, no livro "As rosas e o relógio" (Ed. V. P. Brumlik - RJ) Romero dizia desesperado:
Débora, chega à janela
Tua rua é um rio cheio
Dá água pelo joelho
da enfermeira infalível.
Os automóveis enguiçam
O trem parou no Encantado
Caíram duas barreiras
e vinte e cinco barracos.
Mas o padeiro traz pão
o leiteiro entrega leite
e o eletricista trepado
na torre de alta voltagem
conserta os fios da morte
oferecendo a sua alma
por menos de 100 cruzeiros.
Mais de 500, Débora,
custaram as rosas vermelhas
colhidas na tempestade
por um pobre jardineiro
nos abismos de Petrópolis.
E essas rosas agora
estão na lata de lixo
d'uma amante de banqueiro.
Parece um poema de amor? Nem tanto, mas nem poderia parecer, pelo menos à primeira lida. Abelardo era casado, Débora era moça solteira, de família aristocrata, e seus pais jamais admitiriam escolha tão desastrosa: um jornalista, poeta, e, acima de tudo, casado. Nenhuma família mereceria tamanha desonra. O romance acabou e em 2007 ela me encontrou:
____ Alô, você sabe quem está falando?
E eu surpreendentemente falei: ____ Débora!
Ela gargalhou e perguntou: ____ Ah! Então você sabe quem eu sou?
Completei: ____ Lógico! Lá em casa ouvíamos falar do seu nome, depois que o meu pai adoeceu. Lembro do dia em que ligou para ele, já bem doente, e a minha mãe passou a ligação. Desculpa, mas eu era terrível, adorava ouvir atrás das portas as conversas dos mais velhos.
Assim, de repente, iniciei um dos mais belos diálogos que fiz na vida, uma amizade com um mulherão de 80 anos, que fora o amor impossível do meu pai. Não tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente, mas me dou por satisfeita. O vigor da sua voz me fazia crer que ouvia alguém de, no máximo, 50. O entusiasmo com que falava das suas pesquisas e publicações sobre mitologia grega, os seus poemas, aulas de idiomas, informática, livros de literatura, sobretudo escrito por mulheres, tudo aquilo me deixava fascinada. E quando me disse que era fluente em francês, entendi perfeitamente toda a paixão que o meu pai sentia, um francólico por natureza.
Nesses longos diálogos, ela confessou:
_____ Queria falar para sua mãe o quanto a admiro. Que pena não compreende mais! Ainda bem que estou falando a você para que possa transmitir. Será que ela irá compreender?
Eu quis saber: ____ Por que admira a minha mãe?
E ela: ____ Porque ela fez o que não tive coragem, romper com todos, ir contra todos, para ficar com o seu pai. Muito corajosa!
Fiquei muito feliz com o elogio. Realmente, pelo que vi em casa, valeu a pena a nossa Amélia fazer a escolha avessa e sofrida, mas paradoxalmente acertada.
Da sua parte, Débora não tinha espaço para arrependimentos: "Fiz o que tinha de ser feito", ela dizia, "pedi para sumir e nunca mais me aparecer, jamais ia romper com a minha mãe". Ele obedeceu, ela sofreu, emagreceu, quase chega a inanição, escreveu-lhe poemas que nunca enviou (este é um deles) ...
Onde andará
o meu amor primeiro,
que me encontrava
sob as chuvas de verão,
um ramo de brancas rosas
apertando em sua mão?
Onde andará aquele amor
de um passado tão distante?
Só para ele,
apenas para ele,
meus cabelos tinham a cor
dos tachos de ciganos
e meus olhos recordavam
as águas escuras
do Capibaribe ...
...e quando Abelardo enfim tomou coragem e a procurou ela disse: ____ Vou me casar. Ele não acreditou, quis ver o anel de noivado, invadiu a repartição onde ela trabalhava e quando viu com os próprios olhos que a moça não brincava desistiu, em termos, e foi viver. Ela casou, teve filhos e uma bela carreira profissional. Ele apaixonou-se de novo (o que também desagradou a nossa família, pois meu pai continuava inadequado: primo, bem mais velho e desquitado) e teve outros filhos. Tudo isso ela me contava, nas longas conversas que tivemos.
Mas aos poucos a minha amiga foi deixando de escrever, de ligar, e numa das últimas mensagens, em 2010, confessou-me que ela e o meu pai jamais deixaram de se falar, o amor era constante, modificado, mas vivo, amizade, parceria intelectual, afinidade, se é que se possa definir um amor como este. Assim ela escreveu:
Imagine a minha surpresa quando abri meu correio para lhe escrever e encontrei sua mensagem de Feliz Páscoa! Eu tinha acabado de procurar alguma carta de Romero para lhe mandar. Um cartão com a imagem de Nossa Senhora da Piedade:
Lagarto, 3-4-78
Em meio ao susto e à tristeza, pensei na sorte que eu tive em conhece-la e aprender sobre dinamismo, frescor, vontade, amor a profissão, à própria vida escolhida, à família que formou, as escolhas que fez, sem queixumes, nem remorsos. Ela, que leu Cervantes aos 5 anos de idade, poderia nunca me ligar; ela, que lia 90 livros por ano, poderia não ter tido tempo para mim. Mas, contrariando as probabilidades, foi amiga, conselheira, minha adorável Sherlock Holmes, descobrindo o paradeiro ou a morte de uma lista de amigos do meu pai e, principalmente, me ensinou que quem ama e sabe que é amado segue em frente, apesar da saudade, se dá outras oportunidades de ser feliz, de amar de novo, respeita e se faz respeitado. Quem ama, ama para sempre e sabe que para amar não precisa estar perto, ver, sequer tocar ou mesmo conhecer, como eu, que nunca a vi e lhe amei desde o primeiro olá.
Querida Débora:
Reli, viajando, os seus poemas. Jamais imaginei que a engenheira metida em cálculos, planos, montagens e construções chegasse um dia a revelar-se uma poeta! (Em Poesia só existe o gênero masculino. Mulher que faz bons versos é poeta, e a que os faz maus é poetisa!). Encantado com seus filhos, beijo-lhe as mãos.
Romero"
Em 2011, Débora anunciou um cansaço, uma apatia fora do normal e me deu o seu novo endereço eletrônico. Daí, não nos falamos mais. Todos os dias, ultimamente, tinha vontade de ligar para ela e não o fazia, como acontece sempre em nossas vidas atribuladas. Mas deixei mensagens em seu Facebook (sim, ela tem FB), sem obter respostas. Hoje recebi a notícia: Débora partiu.
É sobre isso que fala o livro juvenil "Longe é um lugar que não existe", do Richard Bach. Quem ama não pode estar longe, pois é impossível. Quem ama está sempre perto, mesmo que distante, ou em outra dimensão, como gostam de dizer os espiritualistas. Os católicos dizem que temos outras moradas, lá em cima, e que as almas afins se reencontram. Os espiritas dizem que vivemos várias vidas, sempre em busca dos mesmos encontros de afinidade. Já Nietzsche, como a maioria do filósofos, diz que só temos essa vida para viver. Na dúvida, fica a certeza de que Débora e Abelardo tiveram uma bela vida, tanto juntos, quanto separados.


linda homenagem a pessoas tão significativas,texto sensacional,te amo,beijos!!!
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