CENÁRIO
Outro dia ansiava por um conselho
e você apareceu. Era você mesmo, mãe? Ou será que me enganei. A cabeça girou
por segundos, e tive a nítida impressão de que você estava ali, ao meu lado. Eu,
que respeito, mas, sinceramente, não creio em médiuns, espíritos, vidas após a
morte ou segundas e terceiras vindas, vacilei. Nossa, foi tão rápido. Não te
vi, não ouvi, mas senti e entendi o recado, letra por letra. Será que aquilo
foi coisa da minha cabeça? Acho que sim. O que não faz uma mente, diante de um forte
desejo? E eu precisava, realmente precisava, falar com você.
Ei mãe, tá me ouvindo? Não é
fácil passar a vida inteira contando as novidades para alguém, que as ouve
interessada e, de repente, ter que se virar sozinha. Você me entende? Sim, claro que tenho os meus irmãos, mas não é a mesma coisa. Quero sempre a opinião deles, mas,
em se tratando de coisa lá de dentro, lá do fundo, bem fundo, sinceramente, até
hoje, só consegui ouvir você, mesmo que fosse para contraria-la, fazer
diferente, criticá-la por suas ideias ultrapassadas e tudo mais. O fato, a
grande verdade, é que não “tô nem aí”, “nem quiko”, “nem préo” para o que os
outros pensam, mas a sua opinião ainda pesa, mesmo que você já não exista. Isso
não é incrível?
Lembro-me do dia em que te
liguei, um ano após a sua morte. Estava no trabalho e te liguei, ou seja, cheguei
a pegar no telefone para te ligar, louca para contar uma novidade, mas me
toquei a tempo. Não havia ninguém do outro lado da linha, já que do lado de lá não
sei, nem quero saber se você estava. Naquele instante, chorei de novo a sua
morte, talvez até com mais intensidade. Foi a primeira vez que percebi,
claramente, que a nossa parceria havia sido desfeita, que o diálogo de
confidentes havia se acabado. Só naquele momento acendi a luz da realidade, mesmo
após 5 anos de silêncio profundo, patrocinado pela senhora Demência Bipolar, e mais
1 ano de morte. Ou seja, precisei 6 anos de monólogos intermináveis para perceber
que estava sozinha. E ainda assim, de quando em vez, tô eu aqui, na mesma
situação, pedindo pinico: “Mãe, o que é que eu faço?”.
Pois é, dizem que se conselho
fosse bom, era vendido, e não dado. Mas em se tratando de conselho de mãe, a
frase popular perde o sentido, pois não existe nada mais precioso, certeiro e
inteiramente gratuito, do que a sua palavra, mesmo que eu discorde dela. Aliás,
era bem melhor quando eu discordava, pois assim podíamos passar mais tempo
discutindo, conversando e até batendo boca. E desse jeito nos perdíamos por horas. Você também era muito xereta, queria saber de tudo, e aí de mim que fechasse a porta para falar ao telefone, ou deixasse de lhe dizer aonde estava e com quem. Você era demais. Perguntava até o nome do restaurante, da boite. Pô mãe, era um saco! Mas as minhas amigas adoravam passar horas conversando com você. Todas, sem exceção, não se importavam com as suas perguntas, achavam você "cabeça", "legal". O fato é que essa tal privacidade, tão requerida pelos jovens de hoje, não existia lá em casa.
Ei mãe, tá me ouvindo? Mesmo que
você não exista, ou não exista o outro mundo, pode aparecer de vez em quando, principalmente naqueles dias em que quero te contar uma novidade, uma baita
novidade, ou queira ouvir os seus conselhos, pois não houve ninguém, até hoje, para te substituir. Sabe de uma: desconfio que é a
minha mente que te cria e recria, porque não suporta, nem nunca suportará, a
ideia de nunca mais ouvi-la. Afinal,
conselho de mãe é sagrado e isso eu posso comprovar.


Aiii minha cunha, estou em lágrimas, que lindo. Nessa foto percebi o quanto vcs duas são parecidas. Te admiro muito pelos anos de dedicação, carinho e amor que vc dedicou a sua mãe, me derreto em elogios quando o assunto é cuidar de um parente que precisa da gente. Alguns falam que não é mais que obrigação, não não é obrigação, é AMOR. Tenho certeza que Amélia foi muito feliz mesmo com as limitações dos últimos anos. Eu sempre fã das coisas que você escreve. Beijoss Paty!!
ResponderExcluirMana mais uma vez é uma grande emoção ler o que acabei de ler,agradeço a Deus por nós termos a permissão de ter nossa mãe,como mãe,tudo o que vivemos com ela é inesquecível, insubstituível,indescritível!!!amo e sinto muitas saudades,como é bom ter mãe, como faz falta não tê-la,independente de idade,de credo de qualquer coisa, quem tem mãe, aproveita pois, sem elas a vida sempre falta algo!!! beijos amada irmã!!!
ResponderExcluirAmei essa carta para a mãe. Sinto as mesmas coisas em relação à minha. Acredito que exista sim um outro lugar onde nossas mães estão seguindo sua evolução, pois evoluir é o nosso destino, no corpo ou fora dele, se até mesmo os animais não foram evoluindo nesse nosso planeta? Sabe que minha mãe também já foi assim magrinha e moreninha!?
ResponderExcluir26 de Maio às 22:29
Dessa vez vc foi na alma,Hein? Chorei lendo, que coisa linda. Ta de parabéns amiga, sempre adorei seus textos, mas esse superou todos.beijooos.
ResponderExcluir27 de Maio às 10:53 via celular
Patricia como vc, tb sinto muita falta da minha mãe; seria tão bom que pudéssemos pelo menos dar um alô, só sabe o que é isto, quem já perdeu o tesouro. Adorei essa carta.Curti mesmo. Bjs.
ResponderExcluirMUITO LINDO,PATRÍCIA...
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