COMPORTAMENTO

O QUE PERDEMOS?

Mandei meu relógio passear. Fui saber disso depois, pois não tinha a menor ideia do que tinha acontecido com ele; se roubado, esquecido ou extraviado. Simplesmente meu relógio sumiu. Confesso que ele não me fez muita falta, pois vivo querendo perder as horas, não ter hora pra nada ou me perder no meio delas. Mas esse não era um relógio qualquer. Além de ser o mais bonito que consegui ter, era um presente. Como pude perde-lo? Será que alguém o roubou? Esqueci no trabalho, num bar, na pia do banheiro de um restaurante qualquer?  Não! Eu não iria deixá-lo num lugar desses.

Três meses depois ele voltou, como se nada tivesse acontecido. Diz que veio pra ficar. O fato é que voltou como foi, inteirinho. Foi dar um rolé na casa de um casal querido, que o guardou com zelo, até se reunirem novamente a sua relapsa dona. De relógio em punho, lembrei automaticamente do livro de poesias O Passado Adiante, cujo autor, Abelardo Romero, meu pai, instiga o leitor, logo de cara, na folha de rosto, com a célebre pergunta de Ésquilo, teatrólogo grego, na peça As Suplicantes: "Como assim? Eu não faço senão encontrar o que perdi." 

Nesse meio tempo, entre o desencontro e o encontro, senti saudades da minha mãe, que morreu em 2008. Sabia que aquela onda (quem perdeu alguém querido sabe do que estou falando, a saudade vem e vai , como ondas, mas nunca cessa) acalmaria, se me enrolasse numa colcha de retalhos. Só uma colcha de retalhos tem esse poder renovador, pois de fato representa cada pedaço de uma vida, cada corte, cada recomeço. Aconselho que cada um tenha a sua. E minha mãe tinha várias, feitas por ela, coloridas, vibrantes. Como se perderam? Culpo as várias mudanças, o meu desapego demasiado, que insiste em doar objetos valorosos, ou, quem sabe, o meu esquecimento. 

Sem remédio para dar, anunciei no Facebook o meu sentimento (afinal o FB tem de servir para alguma coisa) e, para a minha surpresa, recebi uma mensagem da amiga Edilene Fonseca que, com a voz doce que lhe é peculiar, (sim, escutei a voz dela através das letras tecladas) disse: "Paty, a minha mãe já separou a sua colcha". Putz! Que maravilha! Nunca imaginei que isso poderia acontecer, recuperar uma colcha de retalhos, feita pela mãe da Edilene, que é quase a minha mãe, em formato e simpatia, é mais do que um achado, é uma honra. A autora da colcha, uma senhora de andar firme e lindos cabelos brancos, senta-se à máquina e faz aquelas maravilhas, aos 84 anos. Precisam ver o acabamento, os botõezinhos na fronha, o forro, tudo feito com um capricho que as grandes indústrias têxteis jamais alcançarão.

Mãe e um dos muitos tapetes perdidos. 


Mas o que são eles, perto da perda da artesã?
Enrolada até o pescoço na minha nova-velha colcha de retalhos, matei a saudade, recobrei as forças e pensei: o que  realmente perdemos? Eu nunca perdi algo material, genuinamente meu, que não tenha retornado, ou voltado de outra forma, em outro momento da vida. A única coisa que perdi mesmo foi a minha pulseira de ouro, presente de 15 anos da minha tia Astréa, que já vinha de herança dos antepassados, num assalto bobo dentro do Túnel Rebouças. Essa pulseira nunca retornou, é verdade. Mas será que de fato era minha? Acho que alguém lá em cima não gostou de vê-la no meu braço. 

É, não perdemos nada que não seja nosso, a não ser pessoas. Opa! Mas quem disse que são nossas? Nem os filhos são nossa propriedade, que dirá o resto. O que perdemos é a convivência com o outro. Isso não retorna, não vem em outro momento da vida, não tem como recuperar. Só através das lembranças. Mas outro dia tive uma surpresa. Um CD enviado pelo correio me dizia: "Mana, esse é o seu presente de Natal, que deveria ter enviado antes". O remetente, meu irmão Ângelo Romero, vive me mandando emoções em forma de correspondência. Mas dessa vez ele se superou. Depois de 33 anos pude ouvir ali, incrédula, a voz de Abelardo Romero, gravada nos anos 60, num programa da rádio Roquete Pinto. Um misto de sentimentos me invadiu: indiferença foi a primeira, frieza a segunda, mas depois não pude segurar o encontro, a entrega, o amor.

Portanto, o que perdemos? Perdemos coisas, a vida nos leva coisas e o que é pior, nos leva pessoas e somos completamente impotentes diante desse "roubo". Mas aquilo que realmente nos pertence volta, não duvidem. E o que não pode retornar, sejam humilde, e contentem-se com uma parte. Eu fico com as lembranças, a colcha e a voz.

Comentários

  1. Só posso dizer que chorei ao ler...........pois, fala tudo que se tem realmente valor nessa vida!!!! beijoss

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