COMPORTAMENTO

PODEROSAS AFRODITES


Como se confunde uma loira? Você não faz isso, elas já nascem assim”. Será? Cinderela não parecia confusa. Queria ir ao baile, fisgar o príncipe e foi além. Conquistou Walt Disney e uma legião de fãs no mundo inteiro. A grega Afrodite, primeira blonde bombshell de que se tem notícia, não era confusa, muito pelo contrário, causava a confusão entre deuses e mortais, com o seu absoluto poder de sedução. Kátia Flávia, a Godiva carioca, podia até não ter reputação, mas sabia bem o que queria: dominar o submundo. Tirou a roupa no Irajá, ficou famosa, mudou para Copacabana e hipnotizou toda a polícia. De quebra, ajudou o Fausto Fawcett a vender milhões de discos, na década de 80.


Você deve estar achando que eu tenho neurônios a menos, pois essas loiras só existem no imaginário. Mas, na tentativa de explicar essa intrigante má fama, recorro a Carl Jung, psiquiatra suíço. Dizia Jung que os arquétipos universais, contidos na mitologia, nas lendas e contos populares, são heranças ancestrais depositadas no inconsciente coletivo. Esses arquétipos podem ativar padrões pré-formados de comportamento, levando o homem a pensar e agir tal como os seus antepassados. Cinderela, cuja primeira versão data de 860 a. C., não parece burra ou vulgar, características comumente atribuídas às loiras. Dotada de valores morais como espírito de cooperação, humildade e bondade, a Gata Borralheira também se mostra perspicaz e não pode ser considerada fútil só porque tramou o seu plano para ser feliz.


Portanto, arquétipos que justifiquem a burrice platinada não são comuns. E, se fosse associar a inteligência à cor dos cabelos das personagens, diria que as morenas estão a perigo. Branca de Neve não reconheceu o disfarce da velhinha, comeu a maçã envenena e quase morre. Chapeuzinho Vermelho deu confiança ao lobo mau, não reconheceu o seu disfarce e só não morreu por causa do lenhador. E Iracema, a nossa linda índia de cabelos “cor da asa da graúna”, nem se fala. Passou a vida inteira esperando o seu amor retornar. Quem seria tão burra de acreditar naquele papinho de “eu volto para te buscar, meu amor”
 

Deixando o imaginário e caindo na real, quem chamaria Marília Gabriela de “confusa”? Sem comentários. Adriane Galisteu escolheu o namorado certo e nunca mais perdeu o foco, literalmente. Você pode até dizer que isso é esperteza, e não inteligência. Pode ser. Mas está longe de ser burrice. Para Ana Claúdia Todt, “aquelas que são taxadas de loiras burras, nada mais são do que pessoas de pouca instrução, mas que de "burras" não têm nada, pois sempre procuram meios de ganhar a vida mais fácil, o que não deixa de ser horrível. Mas podemos mesmo considerar isso falta de inteligência?”. Formada em Economia, pós-graduada em Gestão de Pessoas e Analista do TRE, Ana Cláudia, apesar de loira, conquistou todos os seus empregos através da aprovação em concursos públicos, passando pelos Correios, Ministério Público da União e, por último o Tribunal Eleitoral, o que comprova dedicação ao estudo, disciplina e inteligência.


E podemos afirmar, objetivamente, a burrice de alguém? A ciência tem comprovado que somente a lógica não é suficiente para atestar a capacidade intelectiva. O QS ou “terceiro Q”, pesquisado por Danah Zohar, filósofa, e Ian Marshall, psiquiatra, foi divulgado em 2000 e tem mudado a visão científica sobre as medidas de inteligência. Responsável pela formação dos valores éticos, o QS, segundo os cientistas que o revelaram, é fundamental para o bom desenvolvimento do QI (Quociente de Inteligência) e do QE (Quociente Emocional). Seria mais ou menos assim: tenho uma brilhante mente lógico-científica, equilíbrio emocional, mas, se aliado a isso, não tiver ética, moral e discernimento para saber qual o real sentido da minha vida, a minha missão, talvez não tenha êxito. Ou seja, tenho um incrível potencial, mas não sei o que fazer com ele.


No terreno das diversas possibilidades também trilhou o psicólogo americano Howard Gardner, criador da Teoria das Inteligências Múltiplas. Segundo Gardner, existem 9 tipos de inteligência: lógica-matemática, lingüística, musical, espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal, interpessoal, naturalista e existencial, que representam as diversas habilidades cognitivas do ser, considerando-se gênio aquele que desenvolve a maior parte delas. A loira Carla Perez, por exemplo, tão criticada pelas suas declarações em entrevistas, ganhou o Brasil com o seu suingue e, por isso, é dotada de inteligência corporal-cinestésica ou motora, visto o absoluto domínio dos movimentos do corpo, com graça e leveza. Esse tipo de inteligência, por sinal, é menos comum que a lingüística ou a lógica. Talvez um físico nuclear, com horas de treinamento, não conseguisse rebolar à la Perez. Portanto, inteligência é algo complexo, e associá-la à cor das madeixas é pura burrice. 
 

BLONDE POWER


Se a ciência não comprova a burrice da loira, dá pistas do seu poder. Em artigo publicado na revista Evolution and Human Behavior, o antropólogo Peter Frost aponta a preferência dos homens da Era Glacial pelas mulheres de cabelos claros, porque aparentavam menos idade, o que os remetia à ideia de juventude e fertilidade, fatores primordiais para a reprodução humana. Então faz sentido a frase popular “mulher não envelhece, fica loira”, dita nos salões de beleza, sobre a super utilização das tintas blondes para prolongar a juventude. A história antiga também evidencia a predileção pelo loiro. O culto à Afrodite, descrita pelos poemas mitológicos como “a deusa de tranças de ouro que flui”, influenciou toda a civilização fenícia, grega e romana. Segundo Hesíodo, Afrodite nasceu da explosão de uma onda, em meio às espumas marítimas. Energia pura, que explica, evidentemente, onde começou todo o poder. 

 

Talvez até hoje Afrodite continue influenciando as mulheres a ficarem loiras, principalmente com a chegada do verão. Numa simples fila de supermercado, não vejo nenhum cabelo preto à frente, mesmo estando no nordeste do Brasil. A arquiteta Carmem Ligia Martins, bisneta de português e loiríssima de nascença, diz que hoje em dia conta nos dedos de uma mão as amigas morenas. “Não estou exagerando quando digo que conto nos dedos de uma mão. Está todo mundo ficando igual, mesmo cabelo, mesmo relógio, mesma bolsa, e isso é horrível”, completa. Carmem não entende o porquê do fascínio pelo loiro, mesmo com tanta gozação: burrice, futilidade, vulgaridade e por aí vai. “A mulher fica horas a fio num salão, clareando os fios, para depois dizer que não é loira, são só alguns fios para iluminar o visual. Para mim é querer ser loira sim”, diz. 
 

Realmente, nos salões de beleza, o loiro ganha disparado. Gilmário Araújo, cabeleireiro do Vogue Coiffeur, diz que de dez clientes que o procuram para colorir as madeixas, 8 preferem o loiro e as suas variações. Enquanto interrogava o profissional, surge uma antiga cliente que, sentando-se confortavelmente na poltrona, dispara: “quero clarear”. Para Gil, a escolha tem haver com poder, status, glamour. Terezinha Machado, proprietária do Instituto de Beleza Bella Donna, confirma a preferência nacional pelo cabelo claro e afirma que em 20 anos de profissão raramente viu uma morena retomar o tom natural, após clarear os fios. “É por isso que dizem por aí, que uma vez loira, sempre loira”, diz ela.


No Império Romano também era assim. Nobres e cortesãs usavam perucas platinadas, feitas a partir dos cabelos das escravas nórticas, para conferir-lhes status e poder. Tudo influência de Afrodite, lá batizada de Vênus. Joanna Pitman, crítica de arte britânica, diz em seu livro On Blondes que a fama de estúpidas foi propagada por diversas religiões, na tentativa de ofuscarem as loiras. Para ela, o universo masculino, atraído, mas ao mesmo tempo intimidado com as loiras, tratou de confirmar a difamação. Assim, acreditavam por freios à liberdade pagã das poderosas Afrodites. E pelo mesmo motivo, usando meios radicais, os alunos da Uniban, em São Bernardo do Campo, agrediram com atos e palavras a estudante Geisy Arruda. A visão de uma loira de tubinho pink foi perturbadora demais para os marmanjos. 
 

FABRICAÇÃO EM SÉRIE


Na década de 30, com a propagação da ideologia nazista e a suposta superioridade da raça ariana, Hollywood enxergou o potencial de Jean Harlow, estrela do filme Vênus Platinada, e, com o seu estrondoso sucesso, tratou de fabricar uma série de loiras. Quem não tinha cabelo loiro, passou a pintar. Assim surgiu Marilyn Monroe, a mais querida de todas, Brigitte Bardot, Gracie Kelly, cada uma em seu momento. E hoje a lista de celebridades continua: Madonna, Gisele Bündchen, Lady Gaga. A Rede Globo, apelidada de Vênus Platinada, não por acaso, também tratou de fabricar as suas divas: Xuxa, Angélica, Ana Maria Braga. Umas loiras, outras nem tanto, mas todas com popularidade e poder. 
 

Morenas, ruivas, negras, muita calma nessa ora! Há espaço para todas. Katy Perry acaba de roubar a cena no Rio, com as madeixas notadamente pintadas de negro. A angolana Leila Lopes arrebatou o prêmio de mulher mais linda do Universo. E dá para imaginar o mundo sem o glamour de Cleópatra, Elizabeth Taylor, Jaqueline Kennedy ou Angelina Jolie? Ou sem o talento de Maria Callas, Frida Kallo ou Ana Botafogo? Portanto, nem a burrice, nem o poder é exclusividade das loiras. Como lembra Carmem Ligia, “Gabriel Pensador foi bem claro, ao final da sua canção quando diz que tem loira burra morena, loira burra ruiva, loira burra loira, ou seja, uma crítica generalizada à burrice, de um modo geral, representada na loira, por ser a mais popular”. Para a loiríssima arquiteta, o poder está na individualidade de cada um: “O interessante é a diversidade, a identidade de cada um; senão, cadê o mistério?”. É por aí.


Comentários

  1. Paty, vc é brilhante! Vamos fazer depois a "Parte II". Rsrsrs! Lembra da história do fascínio dos papais por filhos de olhos claros, loiros??? Pois é...tenho mais pra contar! Rsrsrs!

    ResponderExcluir
  2. Paty Romero sempre brilhante, sensível e provocadora

    ResponderExcluir
  3. Amiga...amoooo ler seu blog.Se jogue e NÃO deixe de postar. Saiba que tem uma leitora assídua...hihihi.

    ResponderExcluir
  4. mainha estou muito feliz pelo seu blog ,PS:adorei a foto da loira cinderela

    ResponderExcluir
  5. Amei sua produção!! A cada dia desabrochando seu saber... Admiro muito vc!!bjos prima!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Opine

Postagens mais visitadas